08 março, 2014

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Johannes Schwab, Berlim, 2010

Hoje, dia internacional da mulher, resolvi escrever sobre mamas e começo por explicar por que escolhi esta fotografia e não outra, pois ao explicar por que escolhi esta fotografia acabo por explicar por que razão resolvi escrever sobre mamas no dia internacional da mulher.
Eu tenho no meu arquivo dezenas de fotografias perfeitas para ilustrar um texto sobre mamas. Porquê então esta e não uma outra fotograficamente e esteticamente mais sugestiva? Ao contrário do que se possa precipitadamente presumir, nada tem que ver com a generosidade da sua dimensão e do modo ostensivo como somos interpelados por elas. Mamas são mamas, sejam elas maiores ou mais pequenas, mais redondas ou mais bicudas, mais rijas ou mais moles, mais descaídas ou mais presas, mais simétricas ou assimétricas. 
O que se torna decisivo nesta fotografia não são as mamas vistas isoladamente mas a relação dialéctica entre as mamas e os olhos: a ostensividade das mamas como inversamente proporcional a um olhar que foge para dentro. Os olhos estão abertos, bem abertos mesmo, mas, ao mesmo tempo, parecem refugiados no vazio. Os dois elementos surgem assim relacionados através de um dinâmico fluxo e refluxo, um dinâmico contraste entre a ostensiva e material exterioridade das mamas e a etérea interioridade do olhar.
Ora, eu sei que no dia internacional da mulher fica sempre bem lembrar as dificuldades pelas quais passam muitos seres humanos apenas pelo facto de terem nascido mulheres. E enquanto existir qualquer tipo de discriminação será sempre legítimo assumir problemas sociais e políticos associados à condição feminina. Tudo a favor disso, portanto. 
E tudo a favor de haver cada vez mais mulheres ministras, deputadas, jornalistas, juízas, advogadas, procuradoras, médicas, cientistas, engenheiras, administradoras, gestoras, especuladoras, directoras ou vice-directoras, presidentes, militares, camionistas, taxistas, empresárias e sei lá mais o quê que possam e desejem ser. Mas seja lá uma mulher o que for, será sempre com as suas mamas que enfrentará o mundo. Uma política será sempre uma política com mamas. Uma gestora será sempre uma gestora com mamas, uma taxista será sempre uma taxista com mamas. Não se trata de machistamente reduzir a mulher ao seu corpo, torná-la um objecto sexual. Acontece que um corpo humano com mamas será sempre diferente de um outro sem mamas, havendo um sentido para além da evidência lapalissiana da frase. Porque seja lá socialmente a mulher o que for, e em que condição for, a úbere realidade feminina amplificará sempre o seu corpo, conferirá ao corpo feminino uma densidade ontológica que falta ao masculino. Por muito alto e forte que seja um homem, por muito ostensivo e hercúleo que se apresente o seu corpo perante o olhar alheio, à sua evidência física faltará sempre um centro simbólico, falha jamais preenchida pelos genitais. Claro que são os genitália que tecnicamente separam o masculino e o feminino, assim como as diferenças glandulares. O homem tem um falo, testículos, próstata que a mulher não tem, esta tem uma vagina, útero, ovários ou trompas de falópio que o homem não tem.
As mamas, porém, ao contrário dos genitália, estão numa posição de fronteira entre a obscuridade orgânica e a visibilidade mais social. Sendo organicamente justificada através da amamentação, trata-se de uma função social que liga a mãe ao bebé e que acabará por associar maternidade e feminilidade. Claro que um homem é tão pai quanto uma mulher é mãe. Claro que o homem é pai através do que biologicamente lhe permite ser, e o mesmo se passa com a mulher. Mas nada há na essência social do homem que o associe fisicamente à paternidade, ao contrário do que se passa na mulher: as mamas. Mamas que coincidirão sempre com a identidade social de uma mulher, convencionalmente construída em função do seu estatuto e papel. 
É por isso que eu gosto desta fotografia. O olhar desta mulher não é o olhar de uma jornalista, advogada ou gestora de empresas, apesar de poder ser qualquer uma das três, e sê-lo muito bem, muito melhor do que qualquer homem. O seu olhar está como que suspenso entre parêntesis, para que ela se apresente ao mundo com a sua verdadeira identidade, uma identidade comum a todas as mulheres, de todas as idades, raças, profissões e classes sociais. Longe de mim retirar à mulher o seu valor social. Nada disso. Desejo apenas associar a esse valor o seu valor físico, tornando assim a mulher, ao contrário do homem, duplamente valorizada, valorizando também um corpo que será sempre mais corpo do que o corpo do homem. E amar uma mulher, valorizar uma mulher, respeitar uma mulher, passará inevitavelmente por amar, valorizar e respeitar as suas mamas.