23 março, 2014

DA VIDA DAS MARIONETAS

Adal Maldonado | Um Momento Retardado, 1973

No supermercado passo por um tipo que vem com uma cestinha de compras debaixo do braço. Lembrei-me então de um tempo em que seria impensável ver um homem às compras, ainda por cima de cesta na mão. O homem tinha todo o tipo de ser um daqueles que, décadas atrás, iria escarnecer de um outro que ele visse a fazer o que ele próprio estava a fazer agora. Ora, como é possível tal coisa acontecer? O mesmo homem, antes, pensar jocosamente sobre alguém que faz o que ele próprio virá a fazer sem pensar ou não pensar numa coisa que agora faz e da qual iria escarnecer se noutro tempo visse outro a fazer? Acontece porque aquele homem não pensava nem dizia o que queria pensar ou dizer, ou do que haveria de rir, como agora não pensa nem diz o que quer pensar ou dizer, ou do que há de rir. Pensava e dizia antes, como pensa e diz agora o que a história lhe manda pensar e dizer, tal como ri ou fica sério quando a história lhe manda rir ou ficar sério. Ou seja, aquele homem não passa de uma marioneta nas mãos caprichosas da história. 
Ora, foi também para isso que a Filosofia nasceu: para haver algumas pessoas que são capazes de ficar sérias quando os outros riem, mas que também são capazes de rir quando os outros estão sérios.