04 março, 2014

CARNAVAL

James Ensor | Máscaras e Morte, 1890

Anteontem, ao ler as Cartas Espirituais de Frei António das Chagas, estava longe de me imaginar no dia seguinte num velório e funeral de um familiar. Que tem uma coisa que ver com a outra? Não se trata apenas de associar o fúnebre momento à inflamada retórica do frade que, com uma veemência barroca, esmurra e pontapeia a vil condição humana. Mas também de invocar a gota de água que, após prolongado estilicídio, motivou a conversão religiosa de António da Fonseca Soares, criança bem nascida, de pai juiz e mãe irlandesa, mais tarde homem mundano, militar, aventureiro e meio perdido numa vida dissipada. Explica Andrée Crabbé Rocha que a transfiguração interior de António se deveu ao pedido de um amigo para glosar o mote

Grande desgraça é o nascer,
Porque se segue o pecar,
Depois de pecar, morrer,
Depois de morrer, penar.

exercício que o levou a concluir que tudo o que amou antes era vão, passando a ver o mundo com outros olhos e a viver com uma consciência aguda da brevidade do tempo e da fragilidade de tudo o que é grande e acaba inevitavelmente em ruínas.
Há muitos anos que tenho uma piada estúpida para usar em funerais, que é dizer que, mal por mal, antes funerais do que casamentos e baptizados. Ontem, apesar de ter ficado no bolso, não deixei de me lembrar dela quando me encontrava sozinho na capela onde o corpo estava a ser velado. Porque apesar de consternado por tão boas memórias que se iam projectando na minha cinematográfica consciência durante aquela sessão da tarde, não pude deixar de me deleitar com o elegante silêncio do lugar em plena flatulência carnavalesca.
E, apesar de estar ali tão longe da verdadeira folia mundana dos dias anterior e seguinte, ao olhar para a urna, um melancólico mas ao mesmo tempo jovial divertimento atiçou a minha consciência: lembrei-me do Hamlet e pensei que o maior de todos os carnavais será aquele em que a máscara sempre airosa e bem disposta de Yorick começa a colar-se definitivamente ao nosso rosto.