10 março, 2014

ATÉ LOGOS


La musique dit en hieróglyphes sonores ce que le logos, occulte ou non, dit avec les mots.
Vladimir Jankélévitch, La Musique et l'Ineffable


Goethe e Beethoven estavam ambos na estância termal de Teplitz. O primeiro, homem do mundo, o "homem universal" como lhe chamou Thomas Carlyle, o elegante cortesão que brilha nos salões, conselheiro privado na corte de Weimar, peixe movendo-se fluentemente dentro da água daquele aristocrático aquário. O segundo, em Teplitz apenas por sugestão médica. Não se conheciam pessoalmente. Mas em Teplitz estava também Bettina von Arnim, amiga de ambos, que os apresenta.
Consta que a relação não foi fácil. Depois de partir, embora sem disfarçar a sua forte admiração pelo grande escritor, Beethoven confessa aos seus editores a sua irritação e perplexidade por ver um poeta tão centrado no seu próprio brilho e glamour. Goethe, por sua vez, não ficou indiferente ao lado mais sombrio e feitio irascível do músico.
A cena que aqui vemos, da autoria de Carl Rohling, ilustra um incidente contado por Bettina von Arnim, 20 anos depois desse Verão de 1812. Enquanto passeavam no parque, cruzam-se com um grupo de figuras da realeza. Beethoven diz a Goethe para não pararem, continuando calmamente o seu passeio e obrigando-os a dar-lhes passagem. Naturalmente que Goethe jamais alinharia em tão subversiva acção, tendo parado para cumprimentar tão importantes personalidades e para as protocolares palavras de circunstância, enquanto o músico prosseguia indiferente ao que se passava à sua volta para o esperar mais adiante. Quando se voltaram a encontrar terá dito: "Esperei por si porque o respeito e admiro o seu trabalho, mas revelou demasiado apreço por essas pessoas."
Existem fortes dúvidas sobre a veracidade deste incidente descrito por Von Arnim, muito provavelmente existindo apenas na sua mente fantasiosa e bastante dada a invenções com impacto social. Mas que importa isso? Pode nunca ter ocorrido mas aí está a cena imaginada por Rohling para pensarmos, não como Oscar Wilde, na vida a imitar a arte, mas na vida a imitar possibilidades de vida.
Fiquemos então com a realidade de Rohling. Goethe e Beethoven surgem ambos com o corpo inclinado. São, porém, inclinações, diferentes. Enquanto Goethe se inclina para falar, Beethoven, indiferente ao que se passa à sua volta, inclina-se para ouvir. Apesar de ser surdo. Mas, como diria Heraclito de Éfeso, o Obscuro, não é com qualquer ouvido que se ouve o logos. E também não é com qualquer boca que o logos é dito. É por isso que o logos não é para todos. Muito menos para aqueles que falam ou ouvem demais. Foi a esses que Beethoven disse adeus sem sequer para eles ter olhado.