02 março, 2014

ATCHIM

Brassaï, Paris, 1935

VÓINITSKI - Agora vai chover, e tudo na natureza se vai refrescar e suspirar de alívio. Eu é que não refresco com a tempestade. Como um duende doméstico, sufoca-me dia e noite a ideia de que a minha vida está irremediavelmente perdidaTchékov, O Tio Vânia, Acto II

Desarmante é a natureza na sua radical simplicidade. O calor sufoca, abafa, seca, queima. Mas vem a chuva e, como diz, Vóinitski, tudo refresca e suspira de alívio. Tivesse a natureza consciência e sensibilidade para suspirar e suspiraria com a a chuva. E gostaria dela como um animal gosta de lamber uma ferida ou de matar a sede. A chuva, enquanto água sobre a pele da natureza, desinfecta, renova, faz regressar tudo de novo a uma liquidez inicial, a uma pureza que expele o mal. Momento extremo desta catarse natural é o bíblico dilúvio.
No ser humano são difíceis estes mecanismos naturais e automáticos como a chuva purificadora para libertar os Vóinitskis deste mundo. Aliás, a chuva, na cidade, espaço humano por excelência, nunca é bem-vinda. Enquanto na natureza a chuva purifica, na cidade a chuva atrapalha a vida das pessoas e dos carros. Na cidade, o que faz suspirar de alívio não é a chuva mas a ausência dela. Daí que, na cidade, a chuva purificadora incomode até ser desprezada e esquecida num labiríntico sistema de esgotos.
Daí também a inveja de Vóinitski face à natureza. Na alma humana não existem águas purificadoras. O que existe são circuitos internos marcados por um complexo e labiríntico sistema de esgotos mentais por onde circulam outras águas, muitas vezes, inquinadas. A fórmula certa não deveria ser que pensar incomoda como andar à chuva. Perfeito seria poder andar à chuva como momento único e privilegiado para não pensar. E não pensar não deveria incomodar. Nós temos pensamentos a mais e sensações a menos. A chuva quando cai não se incomoda, a natureza, quando recebe a chuva, também não se incomoda. A chuva é uma bênção e, felizmente, a natureza não precisa de pensar para poder recebê-la de céu aberto. Para pensar, e pensar demais, já bastamos nós, tendo sido condenados pela natureza a viver sob esse fardo que nos torna impermeáveis à renovação. Podemos não nos molhar e constipar com a chuva da qual fugimos. Mas, como diria Vóinitski, há constipações bem piores.