03 março, 2014

AFELICIDADE

Lewis Hine | Emigrantes húngaros em Ellis Island, 1905

Existem vários níveis de conhecimento, mas também podem existir vários níveis de ignorância e vários níveis de inconsciência. E se existe conhecimento verdadeiro e, grosso modo, conhecimento falso (em rigor, não existe conhecimento falso), também podemos supor uma boa e uma má ignorância, uma boa e uma má inconsciência. Há uma ignorância, estupidamente indolente que embrutece. Como há ainda uma ignorância que transforma a pessoa num estúpido joguete de vontades alheias e reduzida a uma ultrajante menoridade. E há a inconsciência do estado de coma, que é diferente da inconsciência de quem desmaia e mais diferente ainda da inconsciência de quem deseja carinhosamente acariciar um leão esfomeado. Mas também que tal pensarmos que "Ignorance is bliss" como se lê no final da Ode on a Distant Prospect of Etan College, de Thomas Gray?

[...]
Yet ah! why should they know their fate?
Since sorrow never comes too late,
And happiness too swiftly flies.
Thought would destroy their paradise.
No more; where ignorance is bliss,
It is folly to be wise.

Martha Nussbaum [The Therapy of Desire-Theory and Practice in Hellenistic Ethics] lembra uma experiência muito interessante com viúvas indianas inquiridas acerca da percepção de si mesmas quanto ao seu estado de saúde: consideraram-no bom, apesar de haver dados clínicos que revelavam o contrário. Dez anos depois, sendo feita semelhante avaliação às mesmas mulheres, essa percepção mudou consideravelmente. Porquê? Porque durante esse tempo receberam uma educação para a saúde, passando então a ter consciência de certos estados físicos que, anteriormente, passavam despercebidos  (já agora, vale a pena dar uma vista de olhos nisto).
Ora, com o problema da felicidade talvez se passe uma coisa semelhante. Objectivamente, as pessoas, hoje, talvez não sejam mais felizes ou infelizes do que noutras épocas. O que terá mudado foi a nossa percepção sobre o que é a felicidade, o conceito de normalidade ou a exigência relativamente ao que se considera uma vida boa. E se a consciência de certos estados pode fazer-nos sentir mais felizes quando comparados com outros tempos, a consciência de outros pode ter um efeito contrário, fazendo sentir infelicidade onde dantes não poderia existir. E colocar a questão da felicidade no centro das nossas vidas também pode não ajudar.
Não estou com isto a querer desvalorizar a objectiva importância do jogo entre a felicidade e a infelicidade. Aristóteles faz bem por passar toda a Ética a Nicómaco a falar da felicidade como verdadeiro fim que perseguimos, em contraste com tudo o resto, que não passa de meios. E está muito longe de fazer uma cedência aos apetites mais básicos e populares da alma humana. Levou a sério o problema da felicidade e nós devemos continuar a levar. Não por acaso existe hoje uma Economia da Felicidade que deseja fazer parte, de pleno direito, da ciência económica.
Mas também é verdade que inflacionar a importância da felicidade, tal como a da saúde para as mulheres indianas, pode levar a uma percepção mais aguda do que pode dificultá-la. Pensar nela, sim, mas não como ideal regulador ou utopia mas com base em certos parâmetros tangíveis. O que levou estes emigrantes húngaros, pobres e analfabetos, a atravessar a Europa e o Atlântico para chegarem a um país estranho e imenso e sem falarem a sua língua, tal como aconteceu com os portugueses emigrantes de 60, no fundo, foi a luta pela felicidade. Mas não devia haver um único desses emigrantes que tivesse na cabeça a palavra felicidade. Eles foram em busca de uma vida melhor, de uma vida boa. E se é verdade (ainda Aristóteles) que felicidade e vida boa querem dizer a mesma coisa, colocar simultaneamente a felicidade como ideal regulador e realidade empírica, pode ter um efeito desastroso.
Não é preciso ler este livro para perceber o perigo de eleger a felicidade como meta central da nossa existência. Basta ler a sua sinopse. O perigo de nos valorizarmos excessivamente como pessoas, o perigo de um eu exacerbado que se busca incessantemente, da sobreposição do princípio do prazer ao princípio da realidade e, depois, o perigo pelo reverso da medalha: o sentimento de culpa por falharmos, por não conseguirmos, empiricamente, com os olhos da cara, o que os olhos da alma tão sublimemente vêem.
Sem querer abdicar do valor objectivo da felicidade e da infelicidade, julgo, porém, que falta uma carta neutra entre as duas e que deveria estar incluída no baralho deste jogo: a carta da afelicidade. Que está para elas como amoral está para moral e imoral. Por que não pensarmos na possibilidade de sermos afelizes em inúmeras situações em que nos sentimos infelizes só porque pensamos na felicidade?