27 fevereiro, 2014

RISEBUD


Sempre me intrigaram aquelas pessoas com rendimentos que lhes permitem viver em casas de luxo, conduzirem os carros que querem, vestirem as marcas mais caras, comerem nos melhores restaurantes ou ficarem nos melhores hotéis de qualquer cidade, e que ainda se metem em esquemas financeiros ilegais, arriscando a sua segurança e tranquilidade, só para poderem ter ainda mais. Como se não pudessem ter aquilo que já têm e precisarem de mais para o ter. Falo de banqueiros, empresários, políticos, médicos, advogados ou mesmo genros de reis.
Trata-se de uma ambição patológica, bulímica, desgovernada. Que, porém, não resulta apenas de uma mera inclinação pessoal mas também de um confronto com os outros. Se uma pessoa na posse de todos os bens que a riqueza permite adquirir, vivesse sozinha numa ilha, a sua riqueza  seria tão estupidamente inútil como uma ventoinha no Pólo Norte. A riqueza precisa do seu público e nada melhor para atear a fogueira da ambição e da vaidade do que um combustível chamado inveja. Claro que não falta público nas camadas baixas e médias da população. Só que a partir de um certo nível já pouco conta a inveja popular. Muito mais libidinosa será a inveja dos próprios pares.
O Zizek (Violência) lembra uma história popular eslovena que é mais ou menos assim: uma bruxa diz a um homem que lhe dará o que ele pedir mas na condição de dar aos outros o dobro do que dará a ele. O homem pede então à bruxa  para lhe furar um olho. Isto é uma anedota. Mas este confronto com os outros, nomeadamente aqueles que ameaçam ser como nós, encontra-se magistralmente exposto num filme (e não, não é o Citizen Kane) e num romance, completamente diferentes, mas que têm um ponto em comum: o mundo visto de cima e visto de baixo Vale a pena ver esta cena de O Navio. Naquela altiva varanda, os cantores começam por exibir o seu glamour e seus dotes artísticos perante o elo mais fraco da sociedade: o povo. O povo sujo e ignorante que olha para aqueles cantores como deuses inacessíveis. Só que, e tal como acontece com os deuses no Olimpo grego, os deuses revelam-se rivais entre si, tentando ganhar ascendente sobre os pares. E é partindo deste contexto divino que chego também a Teodoro, personagem principal de O Mandarim, que recebe uma astronómica fortuna. Tal como na varanda de O Navio, há um momento em que Teodoro, em sua casa, inebriado pelo cheiro do dinheiro, vê o mundo a partir de cima. Reza assim:

«Eu então fui abrir, toda larga, a janela: e, dobrando para trás a cabeça, respirei o ar cálido, consoladamente, como uma corça cansada. Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguesia se escoava, numa pacata saída de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metais brilhantes de arreios. E de repente veio-me esta ideia, esta triunfante certeza - que todas aquelas tipóias as podia tomar à hora ou ao ano! Que nenhuma das mulheres que via deixaria de me oferecer o seu seio nu a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de domingo, se prostariam diante de mim como diante de um Cristo, de um Maomé ou de um Buda, se eu lhes sacudisse junto à face cento e seis mil contos sobre as praças da Europa!...»

Mas será mais à frente que iremos encontrar a palavra certa para caracterizar a ambição de Teodoro:

«Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da minha grandeza; fui o sublime sr. Teodoro, cheguei a ser o celeste sr. Teodoro; então, desvairada, a "Gazeta das Locais" chamou-me o extraceleste sr. Teodoro

De acordo com a Astronomia aristotélica, existe um mundo supra-lunar, perfeito, e um mundo sub-lunar, imperfeito. A ambição de Teodoro, como a ambição de tanta gente que já é rica e não viverá tempo suficiente para usufruir da sua riqueza, é uma ambição que já não se satisfaz sequer com a perfeição supra-lunar. Só num plano extraceleste, que reduz o celeste à sua própria relatividade. A ambição dessa gente é um desejo de absoluto. Resta apenas saber o que lhes faltará assim tanto na vida para que o seu desejo seja assim tão forte.