16 fevereiro, 2014

PESSOANA

Willard Maas/Ben Moore | Mechanics of Love, 1955

Anteontem, dia dos namorados, estava na biblioteca da minha escola a corrigir testes quando vejo uma rapariga dos currículos alternativos a distribuir rebuçados, cada um dos quais com uma pequena faixa de papel com uma frase escrita. Entretanto, dirige-se para mim e oferece-me também um. Embora sabendo o significado da iniciativa, fiz-me parvo e perguntei o motivo de tal oferta. Explicou-me então, com uma expressão indigente a lembrar algumas figuras de Bruegel, que era por ser dia dos namorados. Agradeço, e mal vira as costas, vou em busca do oráculo: «O amor nasce com o olhar. Dos olhos passa para o coração que enxerga muito mais» Eis um momento feliz cuja superlativa coincidência não pode ser desdenhada: num dia indigente, uma rapariga indigente a oferecer-me uma frase indigente.
Admito que o amor possa nascer com o olhar. Mas, como diria Caeiro, com o olhar nada se sabe, apenas se vê. Claro que passa para o coração. Mas, como bem sabe Álvaro de Campos, o coração é um labirinto obscuro cujos batimentos são insondáveis. Resta o cérebro. Mas, como melancolicamente lembraria Ricardo Reis, o cérebro só servirá para desenlaçar as mãos à beira do rio.
Posso, inspirando-me em Kant, dizer que as ideias do cérebro de Reis sem o coração são vazias e que os batimentos do coração de Campos sem o cérebro são cegos. E como tenho inspiração para dar e vender, dizer ainda, lembrando-me de Platão ou Descartes, que os sentidos de Caeiro são escorregadios e ilusórios. Mas as coisas devem ser o que são. Daí não conseguir mesmo entender a indigente frase da indigente rapariga em tão indigente dia. Haverá lá coisa mais romântica e desassossegada do que dizer «O amor nasce com o olhar. Dos olhos passa para o coração que enxerga muito menos»? O coração pode ser um labirinto obscuro e os seus batimentos serão sempre imprevisíveis e incompreensíveis. Mas é lá que tudo tem de acontecer.