05 fevereiro, 2014

O REMOINHO

Duane Michals |Rene&Georgette (Multiple Exposures), 1965

Dizer que o facebook é uma agência de namoros será provavelmente a afirmação mais polémica que se pode ler aqui, compreendendo-se, por isso, o seu destaque. Dá-se o caso de eu também considerar que sim, ainda que o faça a partir de uma leitura freudiana. Como diz o jornalista e escritor, justificar o facebook pelo reencontro dos amigos da escola primária ou para divulgar trabalhos, é conversa fiada, não muito longe daquilo que Sartre catalogou como má-fé.
Já a afirmação que se poderá revelar mais pacífica, será aquela de que discordo mais. Falar de isolamento a respeito de realidade virtual, por contraste com a realidade, digamos, real, parece forçado e artificial. Duas consciências não se tornam mais reais entre si em virtude de uma presença física que as torne mais visíveis. É verdade que o corpo pode reflectir estados de alma ou emoções básicas (alegria, tristeza, nojo, medo, surpresa, raiva), já analisadas por Darwin no século XIX no seu As Expressões das Emoções no Homem e nos Animais, mas a fé na sua excessiva evidência e radical visibilidade pode igualmente tornar-se ardilosa. Não é por estarem fisicamente juntas que duas pessoas se conhecem melhor ou deixam de estar isoladas. Não há sítio mais isolado e ensimesmado do que uma consciência, essa gaveta fechada onde os papéis esvoaçam em remoinho, ainda que rodeada de estímulos, humanos ou não humanos.
Nem pensar em negar a ideia de que uma ligação virtual entre pessoas está cheia de mentiras, disfarces, ocultações, mistificações, idealizações que tornam essa ligação pouco menos do que fantasmagórica. Não se trata, porém, de uma característica exclusiva das ligações virtuais mas de todas as ligações. A experiência interna de uma pessoa é sempre inacessível, como é inacessível a experiência que A tem de B, sendo ainda mais inacessível a experiência de A da experiência de B da da experiência de A.
Não deixa de ser curioso que o Magritte que aqui surge fotografado ao lado da mulher é o mesmo Magritte que pintou o célebre Les Amants. Se uma imagem pode valer mais do que mil palavras, imagine-se então duas.