11 fevereiro, 2014

MARYLEBONE

Willy Ronis | Mineiro, Pas-de-Calais, 1951

Há um romance de Ian McEwan chamado Sábado, cuja acção decorre num só dia. O sábado de um homem com uma vida materialmente confortável, casado com uma mulher que ama, dois filhos, ambos brilhantes nas suas áreas, que tem uma boa e confortável casa e um excelente carro que adora conduzir.
Há um momento desse sábado em que, ao circular por um mercado de peixe, o homem se lembra que os peixes, tal como as raposas ou os ratos de laboratório, também têm dor. São, por isso, como certos povos distantes, nossos irmãos. Mas continua a comê-los e com grande prazer. A sua sensibilidade impede-o de matar uma lagosta em água a ferver mas come-a com todo o prazer num restaurante quando já vem dentro do prato. O narrador, didáctico, explica: «Como sempre, o segredo, a chave do sucesso e do domínio humano é ser selectivo nas compaixões. Por muitas coisas muito esclarecidas que se digam, é o que está à mão, o visível, que exerce a força que tudo domina. E aquilo que não se vê...É por isso que na amável Marylebone o mundo parece tão profundamente em paz».
Claro que é muito fácil, em Marylebone, um simpático bairro no centro de Londres, estar em paz com o mundo e com os outros. É muito fácil gostar de quem gosta das mesmas coisas, aceitar quem tem os mesmos hábitos, as mesmas rotinas, o mesmo odor. Gostar dos outros não passa assim de um agradável e reconfortante exercício narcísico, a mesma coisa do que gostar de si próprio, uma vez que esses outros não passam de uma projecção de si, multiplamente reflectido num jogo de espelhos. Dialogar com outros é dialogar consigo próprio, rir das piadas dos outros é rir de piadas que podiam ser dele próprio. Em Marylebone a paz é perfeita, imaculada porque, no fundo, está-se sozinho.
Quem, porém, está longe desta idílica perfeição, é uma espécie de peixe que, apesar de sentir dor, perdeu a alma, tornando-se invisível. Nós gostamos de cães e por isso tratamos bem deles e damos-lhes amor. Mas então por que comemos um belo entrecosto no forno ou um suculento frango assado? Porque os porcos e os frangos são invisíveis, não vivem dentro da nossa casa, não dormem aos nossos pés, não vêm a correr aos saltos quando chegamos a casa. É bom ter um cão a nossos pés a mostrar-nos diariamente que somos dignos de sermos desejados por ele, que gosta de nós e que nos ladra aos ouvidos o quanto somos importantes para eles. Os porcos e os frangos, não. São feios, não ladram, não são simpáticos, e têm o estúpido hábito de viverem em pocilgas, capoeiras ou aviários em vez de se deitarem a nossos pés enquanto vemos televisão. E nem sequer são dignos de os levar à rua a passear no fim de jantar. Já se viu, andar a passear um porco ou um frango? Não, os porcos e os frangos comem-se. Quem lhes manda ser feios e ridículos e imperfeitos? Claro que não têm culpa disso mas nós temos direito a seleccionar cirurgicamente os espelhos onde gostamos de nos ver reflectidos.
Nós até nem somos insensíveis. Quem não sente alguma ternura ao ver um cabritinho todo catita a cabriolar numa verdejante encosta? Só uma alma empedernida. Mas ao sentir o seu cheiro quando sacrificado no forno com umas batatinhas, então aí, sim, é que a nossa humanidade mais pungente vem à tona, arrastada pela nossa libido mais primária. Porque os cabritinhos podem ser muito lindos, muito fofos, mas não vêm lamber o nosso ego como se fosse a nossa própria língua a lamber-nos. E quem diz o cabritinho diz também o leitãozinho rosadinho que acaba com uma maçã na boca, tostadinho pelo nosso gastronómico espírito inquisitorial, ou um coelhinho de pelo tão macio mas que rapidamente se esquece mal o vemos aos bocadinhos, tão apetitosamente misturadinho com o arroz.
Por tudo isso, não é na pacatez urbana de Marylebone que se devem reconhecer os nossos sentimentos morais: é na peixaria. Olhando para todos aqueles seres vivos que têm escamas em vez de pele, que respiram por guelras e que a natureza pôs num caminho bem diferente do nosso. Quando chegar o dia em que sacrificamos os nossos instintos por quem é diferente de nós, então, nesse momento sim, podemos finalmente olhar para nós próprios e acreditar na nossa dignidade moral.