28 fevereiro, 2014

HETERONOMIA

Julia Margaret Cameron | A Beautiful Vision (Mrs. Duckworth), 1872

Estava ontem na biblioteca da minha escola a preparar um powerpoint sobre o falsificacionismo de Karl Popper (de vez em quando tenho assim uns arrebatamentos de professor moderno) quando vem ter comigo uma ex-aluna minha acompanhada de um colega, pedindo-me ajuda. Ambos com aquele delicioso ar de quem acaba de passar 3 dias em Woodstock ou de quem se prepara para percorrer a Europa num pão de forma ao som dos Doors e infindáveis solos de guitarra do Jimi Hendrix. Eu disse que ajudava ou não, dependendo do que me pediam e lá lhes disse para me dizerem de sua justiça. Neste caso, se eu lhes podia sugerir um poema moderno para eles apresentarem na aula de Português, mas um poema fácil que não os obrigasse a pensar muito.
Pensei, não muito, durante uns breves segundos enquanto eles, de olhos pregados em mim, esperavam por fumo branco a sair da minha boca. Finalmente perguntei-lhes se conheciam Alberto Caeiro. Não, não conheciam. Fernando Pessoa? Ah, sim, mas Alberto Caeiro e Fernando Pessoa seria uma ligação tão inaudita como a ligação entre uma lâmpada de halogéneo e um baton de cieiro. 
Levantei-me para os levar até uma estante da qual retirei um livro com poemas de Alberto Caeiro. Li-lhes algumas passagens e, talvez devido ao meu obsessivo didactismo, lá fui explicando por que talvez possam ser aqueles poemas os ideais para quem não quer pensar. Ouviram, registaram, indo logo muito contentes a correr para a funcionária com o livro na mão para o requisitar.
Creio que Alberto Caeiro teria ficado feliz por ter sido o escolhido e pela razão por que foi escolhido. Fernando Pessoa, nem por isso, e com as suas legítimas razões. Porque, ao contrário do Pessoa empírico, o heterónomo pensado por si não existe e quem não existe não pensa, sendo o seu não pensamento o pensamento de Pessoa. Pessoa pensa através dos não pensamentos de Caeiro. E estou certo, mas mesmo absolutamente certo (e sabe deus como estremeço com a ideia de absoluto) de que o não pensamento só pode ser um luxo quando é pensado por quem pensa muito. Parafraseando um certo provérbio Zen, apetece dizer que pensar que não se pensa continua a ser pensar. O ideal para muitos será poder chegar ao não pensamento do não pensamento. O que é bem mais fácil de conseguir do que podemos supor. Porque, ao contrário do que acontece com Alberto Caeiro, que não existe, basta existir para que tal aconteça. Heteronomia e heteronímia podem ser facilmente confundidos. Mas são verdadeiramente opostos.