04 fevereiro, 2014

CHANEL SEM NÚMERO


Roman Vishniac

As minhas viagens pelo elevador cá do prédio obrigam-me a uma diária experiência olfactiva motivada pelo rasto dos perfumes que sobrevivem à passagem dos seus moradores.
Por um lado, há os cheiros que facilmente associo a certas pessoas em virtude de já ter passado por elas. Como tenho um olfacto apurado, a associação é muito fácil. Entro no elevador e elaboro mentalmente a imagem física da pessoa. O cheiro, neste sentido, está para a pessoa como a sua voz ao telefone ou a sua letra numa carta. Não é a pessoa, mas também não deixa de ser um reflexo dela.
Depois, há pessoas no meu prédio que nunca vi. Ainda assim, mantenho com elas uma relação através dos seus cheiros. E é aqui que a experiência se torna estranha. Eu sei que aquele cheiro é de uma certa pessoa que passei a identificar, após ter deixado duas ou três vezes o seu rasto. Só que enquanto o cheiro que me entra pelas narinas é concreto, definido, corpóreo, ainda que olfactivamente, a pessoa, pelo contrário, não passa de um fantasma, uma abstracção. Muito diferente, portanto, das outras pessoas que já vi.  A única coisa que consigo formular na minha consciência é o seu cheiro.
Creio que a percepção que certos animais terão das pessoas não deverá andar muito longe desta minha experiência olfactiva. A pessoa é para o animal o que este organiza sensorialmente através do olfacto. Mas também posso usar esta experiência para falar de outra coisa. Se pensar em certos tipos de discriminação em virtude do sexo, classe social, cor de pele, profissão, etc., não devemos andar muito longe deste tipo de percepção. Trata-se de fenómenos em que os outros não são entendidos de um modo claro, objectivo, definido e, não havendo uma relação concreta com a pessoa, fica reduzida à condição de fantasma. Ora, quando entramos no campo dos estereótipos e preconceitos relativamente a pessoas que não fazem parte da nossa experiência social mais íntima e pessoal, acabamos por cair quase inevitavelmente num nível mental que roça a animalidade. Deixamos de pensar para passarmos a cheirar. Ou, para usar um termo mais sugestivo: farejar. Em que os outros deixam de ser pessoas concretas, ficando reduzidas à condição de cheiro. De um perfume barato e desconhecido, claro.