01 fevereiro, 2014

BUÍÇA, O REGICIDA

JRC

Buíça. Chamava-se Buiça o homem que matou o rei D. Carlos naquela fatídica tarde de Fevereiro. Nome heróico para alguns, maldito, para outros. Para todos, ficou como Buíça, o regicida. Palavra feia, a lembrar pesticida, espermicida, fungicida. Compadre de Aquilino Ribeiro, frequentador do café Gelo, era um professor culto, um intelectual que acreditava na humanidade. Tornou-se regicida por imaginar a República como o início de uma sociedade justa. Era ainda um homem bom, delicado, sedutor. Tinha uma irmã jovem muito doente. Buíça visitava-a de propósito para pegar nela ao colo e levá-la a passear pelo campo e apanhar ar puro. Ainda hesitou bastante antes do regicídio. Viúvo, havia ficado com dois filhos pequenos que adorava: Elvira, uma menina de 9 anos e Manuel, um rapaz de 4 anos. Mas uma passagem do seu testamento, escrito 4 dias antes do regicídio, explica tudo. Vale a pena ler:

"Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, orphãos".

Quatro dias depois, com 32 anos de idade, estava morto. Elvira e Manuel, órfãos de pai e de mãe. Entretanto, a República não fez de Portugal uma sociedade livre e justa. Nem a primeira e muito menos a segunda. Tornou-se mesmo, tal como Weimar em relação a Hitler, no ovo da serpente que gerou Salazar. A História é uma coisa complicada. Muitas vezes escrita direita por linhas tortas, outras, torta por linhas direitas. A ilusão de Buíça é a ilusão de quem pensa que as acções individuais, livres e racionais, se podem sobrepor às enxurradas dos fluxos históricos. Como se a nossa pequena mão pudesse decidir a direcção do vento.
Não sei se Elvira e Manuel viveram muitos anos. Se viveram, viveram num Portugal obscuro, miserável, triste, isolado. Com a preciosa ajuda da carabina do pai. Não tivesse sido assim e talvez Portugal, com Luís Filipe ou D. Manuel II, reis constitucionais, inteligentes, cultos, cosmopolitas, "europeus", continuasse a aperfeiçoar a democracia nascida em 1822 como qualquer outra monarquia democrática da Europa que nunca tivesse chegado a conhecer tiranos como Estaline, Hitler, Mussolini, Hosha, Ceausescu ou Salazar. Buíça, pai babado, teria continuado, como o pai de Ulisses, a ensinar os nomes das árvores a Elvira e Manuel, e estes teriam crescido num país muito diferente daquele que viriam a conhecer. Não sei teria sido assim. Poderia ter sido assim.
Não faço ideia do que terá passado pela cabeça de Buíça naquele instante supremo e único, antes de perder os sentidos, após o tiro fatal. Terá pensado em liberdade, igualdade, fraternidade? Creio que teria morrido mais feliz se, em vez de abstracções, tivesse imaginado a sua jovem irmã levada nos seus braços, tendo pela frente um enorme prado verde e florido, numa manhã quente de sol, olhando os lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria. Os lírios do campo não são monárquicos nem republicanos. Podemos olhar à vontade para eles e ver apenas lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria.