19 fevereiro, 2014

A TORTILHA

Elliot Erwitt | Provence, 1955

Um ano depois do seu desaparecimento, foi encontrado um pescador salvadorenho, a 12500 km de distância do sítio onde foi tragicamente surpreendido por uma tempestade. O amigo com quem pescava não conseguiu resistir à violência do mar, do sol e da fome, mas ele, José Alvarenga sobreviveu, alimentando-se de gaivotas, sangue de tartaruga e água da chuva. Chegou a pensar suicidar-se mas agarrou-se à vida, pensando na sua comida favorita: tortilha.
Uma pessoa agarrar-se assim com forças à vida graças a uma tortilha parece um bocadinho apalermado. Mas ao pensar nos estudos realizados sobre quem são os povos mais felizes do mundo, e porquê, não pude deixar de assinalar este quase utópico desvario gastronómico. Consta que são os dinamarqueses, noruegueses e suíços os mais felizes do mundo. Talvez isto nos leve a imaginar as suas ruas como uma espécie de palco da Broadway onde as pessoas vivem em festa e orgiástica felicidade. Como na bela e poética canção de Moustaki, não custa imaginar que as pessoas em vez de andarem, dançam, em vez de falarem, cantam. As razões? Toda uma panóplia de importantes variáveis sociológicas e económicas que explicam a felicidade como se fôssemos ratinhos na skinner box.
Mas depois vem o José Alvarenga com a sua tão amada tortilha e lá vai toda a Sociologia e Economia pelo oceano abaixo. Diz o Teodoro de O Mandarim que não consegue ser infeliz por não ter imaginação para isso. A boutade é fantástica e deve ser levada a sério. Mas bem longe do tom blasé com que do alto da sua aurea mediocritas, o amanuense lisboeta, com o Diário de Notícias entre as mãos numa manhã soalheira, invoca a sua falta de imaginação para a infelicidade, José Alvarenga, perdido no oceano a beber água da chuva para sobreviver, é que não pôde mesmo dar-se ao luxo de desperdiçar a pouca imaginação que é necessária para alcançar a felicidade que tanto desejamos, trocando-a pela muita imaginação tantas vezes usada para conseguirmos alcançar a infelicidade que tanto não desejamos.