08 fevereiro, 2014

A LUCRÉCIA DE CRANACH


O trágico destino de Lucrécia está proficuamente retratado na história da pintura. Mas não da mesma maneira. Enquanto, por exemplo, Ticiano, com um certo espírito de primeira página do Correio da Manhã, resolveu pintar o próprio momento em que Lucrécia é violada por Sexto Tarquínio, a maioria preferiu pintar o seu suicídio, enaltecendo assim a sua sensibilidade após o ultraje e desonra da violação. Entretanto, o próprio suicídio é mostrado de modos diferentes. Verdadeiramente sintomático é o facto de nalguns casos surgir nua ou parcialmente nua, enquanto noutros aparece vestida. Nada de estranho, aliás, uma vez que as fontes permitem as duas possibilidades: enquanto Tito Lívio descreve Lucrécia já vestida depois da violação, Ovídio apresenta-a tal como saiu da cama momentos antes.
Esta Lucrécia que aqui trago, apenas mais uma das várias pintadas na oficina de Lucas Cranach, sendo interessante por si só, mais se torna se comparada com outras versões do suicídio. É o caso desta de Francesco Francia, cujo contraste com a de Cranach é evidente. Lucrécia é aqui retratada como se de uma mártir cristã se tratasse. É verdade que não omite a sua sensual feminilidade mas fica praticamente anulada pelo dramatismo da sua expressão, invocando uma dor quase mística. Ainda está viva mas o seu olhar virado para o céu torna-a já parte de outro mundo onde irá encontrar a redenção de uma culpa que não é sua e que não compreende.
Mais complexa já será esta versão de Joos van Cleve, uma vez que a essência feminina da personagem torna-se muito mais ostensiva se comparada com a do pintor italiano. Porém, mais uma vez, a forte expressividade do rosto, acaba por concentrar nele o objectivo do quadro. O seu peito está exposto, não para sugerir a beleza física de Lucrécia como um fim em si mesmo, mas como elemento factual, de ordem física, associado à violação, tal como numa batalha são exibidos os mortos pelo chão. Mas, na verdade, e isto aproxima-a da Lucrécia de Francia, o que verdadeiramente conta é invocar o seu martírio, a sua dor, a violência psicológica resultante de um acto ignóbil.
Ora, não é nada disso que se vê na Lucrécia de Cranach. Longe de mim perder-me agora pelos típicos elementos pictóricos que fazem do pintor alemão um dos mais fascinantes de todos os tempos. Nem sequer falar desta mulher como típica mulher cranachiana. Não, quero só mesmo concentrar-me na figura de Lucrécia enquanto Lucrécia, fugindo dos arquétipos ou de uma estereotipação das imagens com vista a uma produção em série da obra de arte, muito antes ainda da era da sua reprodutibilidade técnica.
O que nos diz então esta Lucrécia, ainda que sem precisar de palavras para o fazer? Sim, que sofre. Um sofrimento consubstanciado não tanto na expressão do rosto, que noutro contexto poderia apenas exprimir uma serena melancolia, mas na vaguidade do seu olhar. Um olhar que nada tem que ver com os anteriores. Não é um olhar dirigido para as Alturas, como o da Lucrécia de Francia nem um olhar prestes a cegar pela força do desespero como o da Lucrécia de van Cleve. É um olhar ao mesmo tempo vago e aberto, de frente para o mundo. Um olhar que se afasta do mundo ao qual vai deixar de pertencer mas ao qual ainda está ligado. O próprio pintor nos dá essa pista. Como? Olhemos bem para Lucrécia, mas olhar mesmo com olhos de ver. Primeiro, o seu vestuário. Cranach veste Lucrécia com o mesmo bom gosto, paixão, dedicação, empenho com que um deus cria um mundo. Cores esplendorosas, tecidos luxuriantes e cujas texturas afagam os olhos de quem os vê sem ser preciso tocar-lhes. Lucrécia é uma mulher do mundo, que gosta do mundo e sem pudor em mostrá-lo. Mas sob uma Lucrécia vestida há uma Lucrécia nua. Neste caso, como se fosse duas versões de uma Maja de Goya, sobrepostas numa só. Duas versões que rivalizam entre si ainda que nenhuma fique a ganhar. Pintando com sensualidade a sua pele e o seu peito, Cranach investe tanto a expor a beleza física de Lucrécia como o faz com a sua roupa.
E é precisamente aqui que chegamos ao centro deste quadro, graças a um enorme pormenor: o punhal que se prepara para dilacerar o seu alvo e harmonioso peito. O simbolismo é tremendo. Como a Judite do Antigo Testamento, a pastora Marcela do Quixote, ou as jovens indianas barbaramente violadas há bem pouco tempo no mundo real, Lucrécia nada fez para ser lubricamente desejada e merecer o seu crime. Quis o destino que nascesse bonita e desejável e foi esse mesmo destino que a condenou. Mutilar o seu peito, torná-lo aversivo e começar a sua morte por ele, torna-se por isso, redentor.
É por isso que não sendo este quadro, formalmente, uma vanitas, acaba também por sê-lo. Lucrécia não nos está a dizer que a juventude é um bem fugaz ou que a própria vida é um bem fugaz. O que nos está a dizer é que é pela mesma boca pela qual o peixe respira que o peixe também morre e que a putativa vaidade que poderia sentir pelo seu corpo não passaria de uma triste e vã ilusão. O seu rosto está sereno porque a sua alma mantém-se pura. Mas a mão que nos obriga a olhar ostensivamente para o seu peito, mostra que a distância que separa eros e thanatos se esgota na suave e equilibrada forma de um peito feminino.