05 janeiro, 2014

UM DEUS PASSEANDO PELA BRISA DA TARDE


Quando naquela fria mas soalheira tarde de Dezembro de 1969, Eusébio deambulou pelo Estádio Municipal de Torres Novas para o inaugurar, foi como se um deus tivesse descido do Olimpo até ao mundo terreno de uma pacata vila ribatejana. No monte Olimpo que era então o Estádio da Luz, santuário sagrado na capital de um vasto império que ia do Minho a Timor, Eusébio representava o papel de Zeus, deus maior de outros  grandes deuses.
Eusébio faz parte de um tempo em que os jogadores de futebol eram jogadores de futebol e não, como no tempo da televisão de 500 canais, Internet ou jornais desportivos diários cheios de lixo inútil, simples mortais que jogam futebol ainda que vendidos como ídolos romanos. Mesmo os seus nomes não eram nomes pueris como os dos jogadores actuais. Quem pode levar a sério um jogador chamado Ricardo, Tiago, Cláudio, Beto, Dani, Paulo, Marco, Miguel, Diogo Luís, Sérgio? Só falta mesmo uma Heidi para o ramalhete ficar completo. Os nomes dos jogadores impunham respeito, nomes de homens de barba rija, e não de jogadores que comiam Chocapic ao pequeno-almoço, com o 12º ano, e namoradas louras a quererem tirar o curso de psicologia. Jogadores cujos nomes tinham uma força sobrenatural, uma aura homérica: Horácio, Herculano, Vaqueiro, Guerreiro, Tomé, Conceição, Jacinto João, Rebelo, Manaca, Dinis, Conhé, Faustino, Camolas, Cardoso, Nicolau, Arnaldo, Barrigana, Germano, Laranjeira, Coluna, Peres, Moinhos, Quaresma, Benje, Pavão, Rolando, Bandeira, Lourenço, José Torres e tantos, tantos outros.
Era com os cromos dos jogadores e respectivas cadernetas que as crianças construíam o seu santuário, ícones num colorido altar ortodoxo. E não reparavam, como hoje, nos seus cortes de cabelo, se tinham ou não brinco na orelha,  a marca do boné ou das sapatilhas, que carro tinham, como era a decoração da sua casa, onde passavam férias, o valor da transferência e relação com a SAD, quem eram as mulheres ou namoradas. Os jogadores eram mitos e dos mitos não se pode saber muito pois esse é o caminho para a sua derrocada. É por isso que a infância tem muito de religioso assim como a religião tem muito de infantil. E uma equipa de caricas com Eusébio na frente de ataque não era uma equipa qualquer, do mesmo modo que aquela carica não era uma carica mas a carica de um deus que o mundo inteiro viu chorar no fim do triste jogo de 66, o choro de um deus agonizando na cruz de uma infame derrota.
Por isso, naquela fria mas soalheira tarde de Dezembro, ter ali à frente, não a carica mas o deus da carica, não o ícone, mas o deus em carne e osso, constituía uma experiência só compreensível para o religioso quando visita os lugares da sua geografia sagrada. Eusébio em Torres Novas, representou aquilo a se chama uma hierofania. E mesmo que os miúdos, actualmente, tenham jogadores de futebol como ídolos, estamos perante um religiosidade sincrética que é capaz de misturar jogadores com bonecos ridículos e metafisicamente nulos dos jogos e da televisão. As pobres crianças de hoje vivem esmagadas por uma fascizante, dessacralizada e mecânica omnipresença das imagens. E os jogadores de futebol são apenas, e nada mais do que isso, imagens entre imagens que elas vêem diariamente na televisão, nos jornais e nas revistas, nas batatas fritas, bolicaos, chocolates, cereais, desenhos animados, jogos de computador, consolas.
Eusébio, hoje, seria apenas um jogador vulgar como Luís Figo, Zidane, Beckham, Iniesta, CR7 ou Messi, simples mortais de um mundo sensível onde tudo é relativo, apenas com mais jeito do que os outros para jogar à bola. Ainda bem que viveu num tempo que o mereceu. Jogou como um deus, e como um deus teria que morrer.