29 janeiro, 2014

SEQUÊNCIAS

JRC

Memorizar palavras é muito mais fácil do que memorizar números. Não é por acaso que uma boa técnica para memorizar números é transformá-los em frases, numa estrutura morfológica cujo valor sintáctico e semântico lhe confere uma ordem e um sentido.
Vejamos a sequência "275739336".  Trata-se de uma sequência puramente arbitrária e sem qualquer significado. Mas se transformarmos cada número numa palavra com o número de letras correspondentes, a sequência adquire um sentido completamente diferente. Por exemplo:"As árvores cujos troncos são castanhos não dão peixes". Ao contrário do número, a frase tem um valor semântico e uma estrutura sintáctica não arbitrária. Se disséssemos "Não troncos as cujos peixes dão castanhos são" subverteria por completo o seu sentido, sendo quase tão difícil memorizá-la como o número.
Também pode ser um pouco isto que se passa com as vidas das pessoas. Para algumas, a vida pode não ser mais do que um número cujo sentido lhes escapa. Para outras, pelo contrário esse sentido tem que forçosamente existir, seja ele qual for. Se calhar a chave está precisamente na capacidade de transformar uma coisa, à partida, sem sentido e arbitrária, numa outra com significado. Ainda que seja um estranho significado. Dizer que as árvores cujos troncos são castanhos não dão peixes, pode soar estranho. Mas tem um significado, uma ordem, uma estrutura, não é o mesmo do que um número que nos esmaga pela sua incompreensão. E não tem que haver significados únicos. Tanto podemos dizer "as árvores" como dizer "as gavetas". Uma gaveta é uma gaveta, uma árvore é uma árvore. Significados completamente diferentes, mas significados.
Será esta a diferença entre atravessar a vida como um fantasma numa noite de nevoeiro ou como um verdadeiro ser humano à  luz do dia numa paisagem boa para os olhos. Em pó todos nos iremos tornar. Mas a sequência até lá chegar terá sido completamente diferente.