06 janeiro, 2014

SELFIE UNMADE MAN

Jorge Molder

A nossa vaidade histórica, baseada numa oportunista colagem dos nossos egos às pulsões modernas da época em que calhou vivermos, leva-nos muitas vezes a pensar nos nossos começos como começos absolutos, a pensar que o que estamos a fazer está a ser feito pela primeira vez.
Quando se pensa no selfie como palavra do ano, a novidade da palavra transforma também o ano numa novidade. Como se 2013 fosse o ano em que a nossa identidade pessoal, social ou histórica, tenha sido reformulada pelo poder simbólico de uma palavra. E o ser humano é um animal simbólico, sendo as palavras muitas vezes, mais do que meros sinais indicadores das coisas do mundo, símbolos perfeitos.
Ora, o selfie é apenas uma versão moderna e tecnologicamente modificada do clássico e velho auto-retrato, tanto da pintura como da fotografia. O auto-retrato fotográfico, nascido no século XIX já é por si uma versão tecnologicamente modificada do auto-retrato na pintura. Que por sua vez já implica também, sempre implicou, um conjunto de dispositivos técnicos. O selfie, neste sentido, de um ponto de vista formal, é filho do auto-retrato fotográfico
Mas embora a história se repita, dificilmente se repete da mesma maneira. O selfie é um auto-retrato? É. Mas um auto-retrato que, todavia, pouco terá que ver com o papel desempenhado pelo auto-retrato na pintura e na fotografia. Nestas, surge quase sempre com uma motivação introspectiva, ou experimental, quer dizer, submetida a propósitos estéticos e artísticos. Mas há em ambas uma tentativa de ligação do eu a qualquer coisa de estrutural, sólido, que transcende a imediatez de um momento: uma identidade desvelada, tornar sensível uma paixão da alma, contribuindo assim para o reconhecimento do eu, ou, no segundo caso, um desígnio artístico.
O selfie,  por sua vez, carece de tudo disso. Não passa do congelamento mecânico de uma expressão estereotipada, com uma forte probabilidade de ser produzida para expor no Facebook. Trata-se de um caso claro em que a facilidade tecnológica, tal como pode acontecer com a música, o cinema, a pintura ou o livro, conduz à banalização do produto, tanto na perspectiva do emissor como do receptor. 
Não há qualquer apelo à transcendência no selfie. Não se trata de uma arte do eu, de uma religião do eu, de uma filosofia do eu.  Trata-se antes de um turismo do eu,  onde se vagueia superficialmente sobre um eu que se esgota na superficialidade da expressão, tal como se vagueia superficialmente pelos museus europeus, esticando o braço para com o telemóvel fotografar superficialmente as monas lisas deste mundo.