07 janeiro, 2014

OS ESCRITORES

André Kertész | da série On Reading

Viver em sociedade permite compensar a falta de auto-suficiência de cada pessoa. Um tipo pode ser bom a fazer instalações eléctricas mas não tem que saber tratar do seu próprio dente, cortar o cabelo, construir uma ponte, cultivar os produtos que come ou fazer o sabonete com que se lava. E mesmo que saiba, não lhe será possível fazer tudo isso na sua experiência de vida. É por isso que eu gosto de toda essa gente: dão-me o que eu não consigo dar a mim mesmo, que é muito mais, diga-se, do que alguma vez eu tenho para lhes dar. Fico-lhes eternamente grato por isso, sendo também uma razão pela qual jamais trocaria o meu jardim zoológico, onde vivo preso e domesticado, por andar à solta numa qualquer ilha selvagem mas sem ninguém para tratar da minha dor de dentes.
O que sinto em relação aos escritores de quem gosto é também um pouco isso mas é muito mais do que isso. O melhor que me pode acontecer quando leio um livro é sentir que estou a ler exactamente o que eu gostaria de ter escrito mas que não sou capaz de escrever. É também gratidão o que sinto em relação a eles. Só que uma gratidão diferente. Não se trata já de uma gratidão utilitária, como acontece com o electricista, o dentista ou a cabeleireira, mas de uma gratidão mais íntima ou psicológica. Jamais me passaria pela cabeça ser electricista, dentista ou cabeleireiro. Mas não me importaria nada de ser escritor. 
Só que em vez de ficar invejoso, frustrado, irritado, ressentido, magoado, por ver um escritor a escrever tão bem o que eu mesmo gostaria de ter escrito, pelo contrário, fico feliz. Porque finalmente consigo ver no papel o que eu gostaria mesmo de lá pôr se pudesse mas não consigo. Não escrevi, sei que não escrevi, mas sinto-me como se fosse eu próprio a escrever. Leio, coisa fácil e que não dá trabalho e sinto-me escritor, coisa muito difícil e talentosa. Quero lá saber que seja outra pessoa. Interessa é ver a coisa escrita, revelada, desvelada. Vê-la a emergir do nada para o papel, a passar da inconsciência para a consciência. Isso, sim, é que importa.
E ao contrário do que se passa com o electricista, o dentista e a cabeleireira, em que o meu reconhecimento é pago com dinheiro e um simples obrigado no fim, em relação a esses escritores o meu reconhecimento é feito de alegria, júbilo, sentimento de plenitude e de auto-conhecimento por estar a lê-los e por eu próprio poder escrever o livro que eles escreveram. É verdade que não me conhecem nem jamais me conhecerão para eu lhes poder dizer isto. Mas não deixam de ficar homenageados no lugar mais rico que existe dentro de mim.