13 janeiro, 2014

OLDSPEAK

Julia Margaret Cameron, 1865

A cadeira de Filosofia Medieval foi uma das que mais gostei de fazer. Lembro-me bem do meu prazer e entusiasmo a ler S. Agostinho, S. Anselmo, S Tomás de Aquino ou S. Boaventura. Mas não foi fácil lá chegar. Durante muito tempo, a ideia de ter que a fazer foi um trauma difícil de gerir, e não por acaso só à terceira, depois de dois anos a não conseguir suportar as aulas e os livros, é que consegui a transfiguração que me elevou aos reinos da patrística e da escolástica.
Porquê? Porque do que eu gostava era de autores subversivos, revolucionários, demolidores, iconoclastas, modernos, ainda que mais velhos do que a sé de Braga, que ajudassem a manter o ritmo das minhas pulsações juvenis. Ora, estar a ler autores que, para além de serem  mais velhos do que a sé de Braga, me lembravam igualmente os saiotes do bispo de Braga e os acólitos do bispo de Braga e as beatas do bispo de Braga e o Cristo morto na cruz vestido de roxo por cima do bispo de Braga, fazia-me quase sentir ser uma espécie de sobrinho preferido do bispo de Braga, experiência emocional que vivia então com profunda repugnância.
Até que percebi que um intelectual medieval não teria que escrever ou pensar como Marx, Nietzsche ou Freud e que para o entender seria necessário pensar como pensaria um intelectual medieval, o que me permitiu abrir as portas dos seus pensamentos e, graças a isso, descobrir todo um fascinante universo mental que ainda hoje encaro com bastante interesse.
Ora bem, o que me aconteceu com a filosofia medieval é muito parecido com a minha conversão a certas palavras que antes odiara por estarem associadas a uma realidade da qual sempre fugi como o menino do Alberto Caeiro da cruz. Palavras como compaixão, misericórdia, piedade ou caridade. Acontece que são belíssimas palavras e cuja recuperação semântica e pragmática aumentaria a nossa capacidade de reflectir sobre questões morais. São palavras caducas, gastas, ultrapassadas, anatematizadas, mas que não têm qualquer culpa disso e mereciam uma segunda oportunidade, uma vez que se trata de palavras belas e de grande intensidade e amplitude moral.
newspeak é um conceito criado por George Orwell no Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Trata-se de um tipo de linguagem que, num estado totalitário, visa dar um sentido completamente novo à linguagem, apagando e alterando significados das palavras de modo a restringir as possibilidades do pensamento. A velha linguagem dá por isso lugar a uma nova linguagem. O que eu estou aqui a sugerir é precisamente o contrário, uma espécie de oldspeak. Em vez de ser uma nova linguagem na qual se muda o sentido anterior das palavras, trata-se de fazer com que o seu sentido anterior mude o sentido actual. É difícil mas vale a pena. Orwell não inventou o conceito por acaso. Ele sabia que a linguagem não é apenas condicionado pelo pensamento mas que o pensamento também, e de que maneira, condicionado pela linguagem. A oldspeak, ao contrário da newspeak, serviria para ampliar as possibilidades do pensamento.