19 janeiro, 2014

O DIDACTISMO COMO DOENÇA INFANTIL DO CINEMA

JRC | Nazaré

Uma das coisas mais irritantes num filme é o realizador fazer do espectador uma criatura estúpida e de limitado entendimento, que provavelmente não percebe as coisas se não estiverem mesmo chapadas à frente dos olhos. Aconteceu-me isso ontem com um filme (para o caso não interessa qual) com todas as condições para ser excelente: uma boa história, bons actores, boa realização, boa fotografia, boa banda sonora. Mas que por causa de um efeito didáctico, chamemos-lhe assim, motivado por uma excessiva preocupação com o entendimento do espectador, acaba por deitar tudo a perder, fazendo do seu visionamento um exercício forçado e a pedir enorme paciência.
Por exemplo, há os bons e os maus. E para que não restem dúvidas de que os bons são mesmo bons e que os maus são mesmo maus, mostram-se os bons ostensivamente bons e os maus ostensivamente maus. Com trejeitos ridículos e estupidamente amaneirados, actos exageradamente bons ou exageradamente maus, com os bons reduzidos a uma bondade ideal e os maus a uma maldade ideal, ambas sem qualquer tipo de complexidade, contradição, mistura. As personagens deixam assim de ser pessoas normais, ficando reduzidas a meras caricaturas de arquétipos puros e, por isso, descarnados.
E também não restem dúvidas no que toca à sequência narrativa do filme: nada de desvios no fluxo central da história, um espaçozinho, por pequeno que seja, para uma bela inutilidade, um fútil devaneio. Não, muita economia narrativa, seguindo os passos estritamente necessários de acordo com uma sequência óbvia, linear, perfeita para que o espectador não se perca e, como numa demonstração matemática, chegue facilmente às conclusões necessárias, acabando de ver o filme com a sensação de que irá ter uma boa nota quando for interrogado a respeito dele.
Uma pena.