01 janeiro, 2014

O CAVALO DE APELES

Anders Engman, 1958

Sexto Empírico não parece nome de gente. Mas é. De um filósofo ligado à tradição céptica. Nas Hipotiposes Pirrónicas lembra uma história passada com Apeles, um pintor grego do século IV A.C que, querendo pintar a espuma no focinho de um cavalo e não tendo conseguido, desesperado, atira uma esponja contra a pintura. Apercebeu-se então que, por mero acaso, com esse movimento de renúncia, conseguiu finalmente criar o efeito que intencionalmente procurava sem conseguir. Onde pretende Sexto Empírico chegar com esta história? É ele próprio que o diz no Livro I, comparando a atitude dos filósofos cépticos com a do pintor Apeles:
“Os cépticos pretendiam alcançar a tranquilidade decidindo sobre as anomalias em relação às sensações e aos pensamentos, e incapazes de conseguir isto, suspenderam o juízo. Ao fazê-lo, entretanto, descobriram que, como que por acaso, a tranquilidade seguiu-se à suspensão, como uma sombra segue um corpo”.
Pensar no futuro é pensar sobre o que devemos ou não fazer, o que queremos ou não na vida, os projectos e os meios para os concretizar. E guiamo-nos por aqui. Mas as coisas nem sempre são assim tão simples.Imaginemos um acidente de automóvel no qual uma mulher fica ferida. Dramático, claro. Mas suponhamos que, no hospital, um enfermeiro e a condutora se apaixonam e serão felizes para o resto da vida. Mas também podemos imaginar alguém que toda a vida quis ser músico de uma grande orquestra, que aprende clarinete durante anos à custa de sacrifícios e, quando finalmente tem a oportunidade de concretizar o seu sonho, morre num estúpido acidente quando se dirige para o primeiro ensaio. Parece que a vida nos dá lições. Só que não as podemos aprender pois o movimento dos átomos é imprevisível. Ora, se assim é, se não há critérios absolutos para avaliar o que devemos ou não fazer, como devemos reagir?
Diz Sexto Empírico que através da suspensão (epochê) e da tranquilidade (ataraxia). O que quer isto dizer?Digamos que há nesta suspensão e tranquilidade uma certa aceitação dos factos. Não se trata de uma crença no destino, uma aceitação da fatalidade, um cruzar de braços perante as adversidades da vida, um fechar de olhos perante os problemas. Nada disso. Trata-se antes de uma espécie de imunidade perante as adversidades e de alguma distância perante certas verdades aparentemente infalíveis. O dinheiro faz uma pessoa feliz? Não sei. Uma doença terá de ser uma coisa má? Não sei. Há pessoas que só começaram verdadeiramente a viver depois de terem sobrevivido a um cancro. Não sei, não sei, não sei.
Agora que vamos começar um novo ano, pense mosno gesto de Apeles e nos sábios ensinamentos de um velho filósofo grego sem nome de gente: preocupemo-nos, sim, mas com calma. Muita calma. E cuidado com as verdades avassaladoras que nos querem impingir. Um bom 2014