22 janeiro, 2014

LÁGRIMAS E SUSPIROS DE UMA NOITE DE VERÃO


Saber deste documentário parece coisa caída do céu. É uma das relações míticas da história do cinema e, pelo tipo de filmes onde foram actriz e realizador, mais fascinante do que grande parte das made in Hollywood. Não por voyeurismo (pronto, vá, um bocadinho) mas por permitir ver o lado de dentro de alguns dos filmes da minha vida, penetrar nos seus aparelhos circulatório e respiratório, invisíveis a olho nu.
Mas ficando-se demasiado pela superfície acaba por ser uma desilusão. Ainda assim vale a pena, nem que seja para perceber que durante as filmagens de filmes que ficaram marcados por tremendas inquietações metafísicas, existenciais ou religiosas, existe uma conturbada história de amor que, nalguns deles, chega a misturar-se com as próprias imagens sem que o espectador se possa disso aperceber. Ok, e o que tem isso assim de tão de especial? O que tem de especial é, aproveitando a sugestiva imagem hegeliana, tornarmos-nos os criados de quarto de Ingmar Bergman para os quais, mais uma vez, continua a não existir heróis.
Nós vemos um homem a jogar xadrez com a morte, o padre que duvida de Deus, a solidão metafísica e psicológica, mas por detrás da câmara de filmar, está um homem absolutamente concentrado na sua vida amorosa, ora apaixonado, ora incapaz de amar, ora alegre e feliz ao lado da sua amante, ora torturado, ciumento, rancoroso e vingativo por causa dela.
O século XX, com a criação de uma classe média massificada, emergindo dos estratos mais baixos da pirâmide social, viu o mainstream artístico ser ocupado, fosse no cinema, na música ou na literatura, por uma cultura popular na qual as relações amorosas, para o melhor e para o pior, são o tema central, seja por via do drama, seja por via do humor. Esta massificação veio dar origem a um divórcio entre essa cultura mais popular e um nicho cultural e intelectualmente mais refinado no qual, num plano cinematográfico, os filmes de Bergman adquiriram um enorme reconhecimento.
Os intelectuais e as pessoas culturalmente mais evoluídas olharam sempre com enorme desdém para as inquietações amorosa expressas de um modo popular. Como se fosse matéria pouca digna comparada com assuntos de uma outra dimensão. E mesmo que o amor seja igualmente tema central na grande literatura, música, pintura ou cinema, a sua expressão é sempre depurada, refinada, esteticamente mais elaborada.
É por isso que este documentário dá que pensar. Os filmes mostram um Bergman envolvido com as mais elevadas questões da natureza humana. Porém, desligadas as luzes do plateau, tudo se esvai para encontrarmos um Bergman a braços com as mais vulgares inquietações amorosas dos mais vulgares seres humanos.  À noite, depois de cumpridas as distintas tarefas que os identificam e separam em mundos tão distintos, e com as luzes já apagadas, patrão e criado de quarto irão sonhar os mesmos sonhos.