04 janeiro, 2014

ESPECTROS

Pierre Jahan |Paris, destruição de estátuas para recuperar os metais, 1941

«Conheceis bem o que fazeis, aquilo de que sou capaz, e examinastes muito bem o que fizeram os outros para poderdes duvidar deles, embora, por um excesso de generosidade, queirais ignorar a extrema obrigação que tenho para convosco, por me haverdes concedido uma ocupação tão útil e tão agradável como a de ler e considerar as vossas cartas. Sem a última, não teria entendido tão bem o que Séneca pensa da beatitude, como creio entender agora. Atribuí a obscuridade que se encontra no dito livro, como na maior parte dos antigos, ao modo de se explicar, completamente diferente do nosso, a que as mesmas coisas, que são problemáticas entre nós, podiam passar por hipóteses entre eles; e a pouca ligação e ordem que ele observa, no intuito de, surpreendo a imaginação, ganhar admiradores em vez de, informando o juízo, ganhar discípulos; a que Séneca utilizava boas palavras, como os outros utilizavam poesias e fábulas, para atrair a juventude a seguir a sua opinião. O modo como refuta a de Epicuro parece apoiar este sentimento. Ele confessa a respeito do dito filósofo: quam nos virtuti legem dicimus, cam ille dicit voluptati (Aquilo que dizemos que a lei é para a virtude, ele diz que ela é para a volúpia)»

Trata-se de um excerto de uma das muitas cartas escritas por Elisabete da Boémia a Descartes, esta, em 1645. Há, portanto, 365 anos. Entretanto, essa pessoa está a falar de uma outra, Séneca, que viveu há 2000 anos, o qual, na boca da mulher que viveu há 365 anos, critica uma outra, Epicuro, que viveu há 2300 anos.
A distância que nos separa de Elisabete da Boémia, 365 anos, é muito grande. Sensivelmente a mesma distância que separa Séneca de Epicuro. Porém, a distância que separa Elisabete de Séneca é muito maior. Enorme mesmo. E a distância que separa Epicuro de Elisabete ainda maior. E ainda maior a distância que nos separa de Séneca, e maior ainda a distância que nos separa de Epicuro, como maior seria se se tratasse da distância entre nós e Hesíodo.
Estas distâncias temporais, tal como as espaciais, são mensuráveis. Um ano não se confunde com uma década a qual, por sua vez, não se confunde com um século, que por sua vez não se confunde com um milénio. Só que, na nossa consciência, na nossa consciência aqui e agora, a partir de uma certa distância, o passado deixa fazer sentido enquanto elemento mensurável, para se tornar numa todo indiferenciado, um buraco negro que acumula e unifica multiformes texturas temporais sem contornos bem definidos, como objectos que tentamos perceber no meio de um nevoeiro cerrado mas que  não conseguem assumir uma forma clara e distinta. Temos a matemática percepção do que são 300, 1000 ou 2000 anos, podemos perfeitamente traçar segmentos de recta que indiquem claramente essas distâncias mas a nossa consciência de uma consciência antiga perde-se num labirinto onde o tempo deixa de fazer sentido.
Eu não consigo deixar de pensar na noção de antigo de que fala uma princesa, para mim, aqui e agora, igualmente antiga. O que significa na consciência de um tipo do século XXI, a noção de antigo bem dentro da consciência de uma mulher do século XVII? Repare-se que ela fala em obscuridade quando se refere à mentalidade de um antigo. Mas o que será para nós, no século XXI, a consciência de uma mulher do século XVII? Certamente que a referida obscuridade não será menor, sobretudo se pensarmos que provavelmente o mundo terá mudado mais do século XVII para o século XXI, do que do século I para o século XVII.
Há nesta situação um outro tipo de obscuridade, bem mais complexa. Não se trata já apenas de entrar na cabeça de uma mulher do século XVII mas de entrar na cabeça de uma mulher do século XVII a entrar na cabeça de um homem do século I. Trata-se não apenas de uma ilusão mas de uma ilusão de uma ilusão, como se tentássemos compreender a consciência de um fantasma através da consciência de outro fantasma.
O que se torna engraçado é projectarmos este tipo de comunicação espectral para a nossa memória pessoal ou biográfica. Quando pensamos, num qualquer tipo de presente,  em fases anteriores das nossas vidas, estamos a pensar com a consciência do que somos mas igualmente através de outras consciências que tivemos em fases em que a nossa identidade era diferente. Nós não conseguimos pensar na nossa infância, apagando a consciência que tivemos da nossa infância em momentos posteriores. Pensamos no nosso passado através de pensamentos de pensamentos de pensamentos do nosso passando, numa espécie de espelhos sobrepostos que, bem diferente do que acontece na célebre cena da Dama de Xangai, não nos dão diferentes ângulos ou perspectivas de uma mesma realidade, mas camadas que se completam ao mesmo tempo que se anulam, tornando o passado longínquo numa sincrética ficção. A obscuridade de que fala a princesa da Boémia não é apenas relativa a uma consciência antiga. Ela está bem dentro da nossa própria consciência.