24 janeiro, 2014

CONFUTATIS

Alain Resnais  | O Ultimo Ano em Marienbad [fotograma]

Mozart e Schubert morreram jovens. Wagner morreu idoso. Será caso então para lamentar mais a morte dos primeiros do que do segundo? O argumento parece óbvio: tendo morrido jovens teriam ainda muito para dar à humanidade, enquanto Wagner, idoso, já não. Mas será assim? Será que podemos ver a morte de uma pessoa, ainda que se trate de um artista, de um modo utilitarista? Será sensato dizer que as vidas de Mozart e de Schubert seriam mais valiosas do que a de Wagner porque não tendo nós chegado a ouvir o que poderiam ter composto, o prejuízo é maior?
Não. Nós não conseguimos pensar num mundo sem Mozart, Rembrandt ou Cervantes cujas obras enriqueceram o património da humanidade, sendo impossível pensar sem eles. Certo. Mas se o pai e a mãe de Mozart não se tivessem conhecido ele não teria nascido. E se não tivesse nascido não teríamos a sua música. E se pensarmos nos milhares de homens e de mulheres que, por não se terem conhecido, nunca chegaram a ter os filhos que poderiam vir a ser excelentes músicos, pintores ou escritores? Mas alguém consegue pensar nos não-músicos, nos não-pintores e nos não escritores com as suas não-músicas, não-pinturas e não-textos? Por cada partitura escrita, há milhares de partituras não escritas por músicos que não chegaram a nascer ou que, tendo nascido, não chegaram a ser músicos. Alguém lamenta isso, sofre por causa disso? Alguém lamenta os fantásticos golos não marcados por geniais jogadores que nunca chegaram a existir?
Perante este universo de possibilidades infinitas, a importância das possibilidades finitas de Mozart fica naturalmente relativizada. A distância que vai do "infinito"  de possibilidades falhadas à finitude das possibilidades conseguidas é brutal. Mas a distância entre a finitude das possibilidades falhadas de Mozart e de Schubert e a finitude das possibilidades falhadas de Wagner é meramente relativa.
E quem me diz a mim que a melhor ópera de Wagner não estaria ainda para vir? Uma ópera escrita dois anos depois da sua morte se ele não tivesse morrido? E que as as melhores composições de Mozart e de Schubert foram mesmo aquelas que foram escritas? Mas não gosto deste argumento excessivamente utilitarista.
Prefiro pensar que não há vidas mais valiosas e menos valiosas. Vida é vida. Há estar vivo e estar morto. Psicologicamente, pode ser mais dramático morrer jovem do que morrer velho. Mas, rigorosamente falando, sendo jovem ou velho, morrer é simplesmente passar da vida à morte. E no acto de morrer somos todos iguais, independentemente da raça, do sexo, da idade, da profissão. Morrer, como dizia Epicuro, significa regressar ao que nós éramos antes de nascer: nada. Do nada todos viemos e ao nada todos regressaremos.  E não há coisa mais democrática do que o nada.