12 janeiro, 2014

CLAIR DE LUNE


É bem conhecida a birra de Platão com a arte e os artistas. Platão foi um filósofo profundamente envolvido com o problema da verdade e do erro, do real e da aparência. Para ele, a arte está claramente do lado das aparências.
Sobre o que não existe não se pode pensar ou dizer seja o que for. Já quanto ao que existe, há duas possibilidades. Pensemos numa árvore. Uma árvore existe. Mas é mutável e perecível. A árvore não é sempre a mesma e, mais até do que isso, daqui a uns minutos pode estar reduzida a cinzas. Como se não bastasse, não passa ainda de uma possibilidade de árvore. Por exemplo, uma laranjeira. Mas há outras árvores como macieiras ou pinheiros. E mesmo sendo uma laranjeira é apenas aquela laranjeira, diferente de outras laranjeiras. Esta laranjeira parece real mas não passa de uma realidade imperfeita e relativa, uma mistura de ser e não ser.
Mas pensemos agora, não na multiplicidade de árvores que existem mas na ideia de árvore. Sendo imaterial, não é perecível, corruptível. Podem arder todas as árvores do mundo, mas a ideia  de árvore é pura e eterna. Por outro lado, a ideia de árvore não é esta ou aquela árvore mas uma árvore universal que dá sentido e identidade a todas as árvores possíveis, que só são árvores porque participam dessa ideia, como uma cadeira ou um copo participam das ideias de cadeira e de copo. Conclusão: as ideias, apesar de não se verem porque não existem fisicamente para serem vistas, são, ipso facto, muito mais reais do que as coisas que se vêem, tocam ou cheiram, que não passam de aparências, cópias imperfeitas das ideias.
Mas como chegar então à ideia? Através dos sentidos? Nunca. Os sentidos servem para ver as árvores, não a sua ideia. Terá que ser através do pensamento ou da razão. Há assim dois tipos de mundo, um, real, sólido, verdadeiro, ao qual acedemos com o pensamento, enquanto ao outro, frágil e imperfeito, acedemos com os nossos pobres e frágeis sentidos.
O que acontece então com a arte? Vamos lá ver: se uma laranjeira não passa de uma aparência, uma vez que é uma cópia imperfeita da ideia de árvore, a laranjeira pintada por um artista, sendo uma cópia da tal laranjeira, não passa de uma cópia de uma cópia, aparência de uma aparência. Se o mundo à frente dos nossos olhos é um mundo aparente, o mundo da arte consegue ser ainda mais aparente e ilusório e, como tal, deve ser completamente rejeitado. Platão é por isso um intelectual na acepção mais radical da palavra. Só o mundo verdadeiro conhecido pela razão conta, tudo o resto é relegado, com desprezo, para o plano da ilusão e da falsidade.
Vem isto a propósito desta fotografia de Claude Debussy com Emma Bardac. Não se trata propriamente de uma fotografia de Claude e Emma mas de uma fotografia de uma fotografia de Claude e Emma. Ora, se uma fotografia pressupõe uma relação ilusória com o real, oferecendo-nos apenas o congelamento de um instante parcial e previamente filtrado, a fotografia de uma fotografia como é o caso desta, afasta-nos ainda mais da realidade. Ao contrário da fotografia original que podemos ver em baixo, uma simples fotografia documental, esteticamente neutra ou desprendida e motivada apenas pelo registo objectivo de um casal sentado num banco de jardim, a fotografia em cima adquire uma aura que decorre do seu efeito de desfocagem assim como da montagem na qual se salienta o discreto desvelamento de um pedaço de carta, formando-se um todo harmonioso.
É claro que esta fotografia, ao criar uma maior distância entre o facto real e a nossa percepção dele, faz-nos perder ainda mais o sentido da realidade. Mas se perde valor objectivo, por outro lado, este efeito de distância e de afastamento que lhe retira todo o ruído histórico, permite estabelecer um outro tipo de relação com o facto. Que já não é do domínio do conhecimento, da objectividade, solar e apenas pela comandada pela luz da razão, mas do belo, do encanto, do mistério, do fascínio, de um ideal que não é visto pelos olhos em função das leis naturais da óptica, mas através de uma visão na qual impera a imaginação e o poder das emoções.
Claro que isto confirma o estatuto ilusório da arte que tanto maçava Platão. A consequência que daí podemos retirar é que é diferente. Em vez de se atirar aquela vã fotografia para o caixote do lixo, haverá antes razões para a valorizar e proteger. A arte tem razões que a própria razão desconhece.