30 janeiro, 2014

CÂNTICO CINZENTO


O dom de um humorista para o drama é capaz de ser o mesmo de um autor dramático para fazer humor. O que pode explicar um humorista como Woody Allen fazer filmes como Interiors ou September ou um realizador tão dramático e metafísico como Bergman realizar excelentes comédias como Sorrisos de uma Noite de Verão ou O Olho do Diabo.
O Olho do Diabo (1960) é uma ilha de humor e jovialidade rodeada de filmes tremendos ou inquietantes por todos os lados, como são O Sétimo Selo, Morangos Silvestres (1957) ou A Fonte da Virgem (1960) ou um filme claustrofóbico, como O Silêncio (1963). O filme é inspirado no provérbio irlandês "Uma rapariga casta é um tersol no olho do diabo". Neste caso, temos o diabo com um incomodativo tersol porque uma rapariga, filha de um pastor protestante, está prestes a casar virgem. O diabo resolve então mandar à Terra D. Juan, tendo como missão evitar que tal aconteça.
A partir daí deparamos com uma fáustica batalha entre dois poderes: o do céu e o do inferno. A mais velha e irredutível batalha de sempre, a batalha das batalhas, a batalha que irá perdurar enquanto o tempo for tempo e o ser humano for humano. A mestria e subtileza metafísica de Bergman está no modo como vai fazer evoluir esta batalha e eleger vencedores e vencidos. Contrariamente a uma visão esquemática e dicotómica que alimenta religiões e moralismos vários, ambos ganham e ambos perdem. Quando prevemos a força do diabo a fazer submergir os mais nobres sentimentos humanos, assistimos a uma reviravolta que deixa o próprio D. Juan com mazelas no coração. Porém, quando já se ouvem as angélicas trombetas do céu a comemorar a vitória, vemos o tersol do diabo a desaparecer.
Sendo opostos, deus e o o diabo vivem um do outro. E nós, ínfimos insectos sob um esmagador céu estrelado, nascemos, como diria Régio, do amor que há entre eles. O nosso cântico não é, por isso, negro. É cinzento. Mais escuro ou mais claro, consoante os casos.