27 janeiro, 2014

AUTO-RETRATO

Ivan Terestchenko

Foi há tempos descoberto um auto-retrato inacabado de Rembrandt. Não posso deixar de atender à ironia que lhe está subjacente: um auto-retrato inacabado de um homem que, em diferentes fases da sua vida, obsessivamente se auto-retratou, que tanto quis caçar os seus estados de alma e a sua identidade.
Não deve haver melhor auto-retrato do que um auto-retrato inacabado e assumidamente inacabado. Não estou a dizer que fosse essa a intenção do pintor holandês. Daí a ironia. O mais certo é não ter sido, mas o sentido e valor desse inacabamento é o mesmo que teria no caso de ser conceptualmente elaborado. Mesmo que o auto-retratado esteja morto e a ave de Minerva, a ave da sabedoria que só levanta voo quando o dia chega mesmo mesmo mesmo ao fim, tente finalmente sobrevoá-lo. Nem assim. Depois de mortos sabemos definitivamente o que fizemos. Mas será sempre infinita a ignorância sobre o que poderíamos ter feito se tivéssemos continuado a viver.