25 janeiro, 2014

A MULHER DE NAT GUTMAN


Foi para aí há um ano e tal que descobri a fotografia de Roman Vishniac e desde logo fiquei fascinado com os seus retratos do povo judeu durante os anos 30. Vi e revi várias vezes esses retratos mas só há semanas dei pela mulher de Nat Gutman. A fotografia é belíssima, gostaria sempre dela independentemente de a mulher estar ou não identificada, mas a minha curiosidade fez-me procurar o homem que faz com que uma fotografia da sua mulher esteja identificada, não como mulher, mas como sua mulher.
Se esta mulher surge sem nome, porque associada ao marido, é porque o marido, ao contrário da mulher, será uma pessoa importante. Alguém sabe quem é Elsa Löwenthal? Foi mulher de Albert Einstein. Se virmos um retrato dela, muito naturalmente iremos dizer que é a mulher de Einstein e não Elsa Löwenthal. Alguém sabe quem é Denis Thatcher? Publicamente falando, Denis Thatcher não existe, sendo apenas o marido de Margareth Tatcher. Ora, foi mais ou menos este o meu raciocínio ao ir em busca de Nat Gutman. 
Porém, quando procuro Nat Gutman a sua grande referência é a fotografia da sua mulher intitulada A Mulher de Nat Gutman, dando origem a um estranho jogo especular: a mulher cuja fotografia se intitula A Mulher de Nat Gutman é casada com Nat Gutman, homem que passa a ser conhecido porque é o marido da mulher que nos é apresentada em função do homem que é apresentado como sendo o marido daquela mulher, o qual, como podemos aqui observar, não passa de um homem comum, apenas conhecido por ser o marido de uma mulher que apenas é a mulher desse homem comum. Trata-se não só de uma estranha circularidade mas também de uma angustiante circularidade: duas pessoas que dependem uma da outra, em que cada uma delas se identifica em função da outra, sendo essa outra "ninguém". Esta mulher que é ninguém, tornou-se alguém em virtude de um homem que é ninguém e que passou a ser alguém graças a esse ninguém que é a sua mulher.
Contudo, é no angustiante vazio tautológico desta relação que também encontro a sua força. A mulher de Nat Gutman está longe de ser uma mulher bonita. Mas há nela um porte, uma dignidade, uma inteligência, uma serena e delicada altivez, uma aristocrática elegância, miraculosamente captadas pela câmara de Roman Vishniac, que faz elevar a um plano verdadeiramente superior a mulher simples de um homem simples, fazendo desta fotografia uma espécie de apogeu visual do ser humano anónimo e comum. 
A mulher de Nat Gutman poderemos ser todos nós.