09 janeiro, 2014

A CASA E O MUNDO


Até que ponto será estranho ver aqui um homem como Michael Palin em busca da pintura de Hammershoi? Ou  ler o que diz ele aqui sobre a sua pintura? O que leva um comediante, alguém que faz do disparate e do nonsense um modo de vida, a sentir-se magnética e compulsivamente atraído por aqueles quadros, com uma força que nunca tinha sentido antes? O que leva um homem do riso, do estridente ruído da gargalhada, a gostar de um pintor quase solitário, que pinta mulheres solitárias de costas, ou ambientes penumbrosos, solitários e silenciosos, apenas suave e discretamente interrompidos por uma luz tímida e introvertida?
Talvez por isso mesmo: por ser um comediante, sendo talvez o seu fascínio por Hammershoi parecido com o de Woody Allen pela sua grande referência cinematográfica, Ingmar Bergman. Um cómico é alguém que, através de uma inteligência que tem tanto de lúcido como de corrosivo, ou que tanto mais corrosiva é quanto mais lúcida for, instala uma desordem no mundo. O riso é, por isso, desmistificador, destruidor, desidolatrador. Também por isso, factor de desilusão. Se pararmos de rir e pensarmos porque estamos a rir, logo perceberemos que teríamos motivos para não rir. Rimos do tipo que escorrega numa casca de banana, da estupidez humana, do ridículo, da irracionalidade, do absurdo. O que no faz rir na anedota é o absurdo da anedota. E se fossemos completamente racionais, pensando a sério no verdadeiro significado desse absurdo, logo perderíamos a vontade de rir.
Mas um cómico não se esgota na sua comicidade tal como um estudante, um carpinteiro ou um médico são muito mais do que alguém que estuda, trabalha a madeira ou cura pessoas. Um médico não cura pessoas enquanto  está a dormir, a comer, no cinema ou a nadar numa praia mas não é por isso que deixa de ser médico.
Também no cómico existe humanidade para além da parte dele que faz rir. O cómico provoca o ruído das gargalhadas, revela o lado escorregadio do ser humano sob a luz ofuscante do sol do meio dia, perante a qual nada escapa, onde não existe a sombra, o disfarce, a dissimulação, a reserva e a invisibilidade da vida interior. Seja no riso de Aristófanes, Terêncio, Bocaccio, Rabelais, Cervantes ou Shandy. Ou no riso de Hogarth perante as peripécias sociais da vida inglesa. O homem, na sua mais pura e vergonhosa nudez antropológica, sem biombos morais ou psicológicos que o imunizem do riso.
Talvez por isso sejam tão importantes para a parte que dentro do cómico não ri estes quadros de Hammershoi, os quais substituem a vida tal como ela é, o estridente mundo sensível das fragilidades humanas, por uma inteligível ordem feita de silêncio, sombras, contenção, discrição.
Uma mulher  parada e só (como diz Palin, essa mistura de Vermeer e Hopper), vista de costas, está nos antípodas do que dá vontade de rir. Adivinha-se uma vida interior emergindo no silêncio de um interior sem máculas sociais, psicológicas ou morais. Que melhor do que isso para redimir o riso da sua estridência? Uma estridência que faz falta, que é necessária, mas que nos faz perder a nós próprios já que nos exila apenas no exterior, nas contingências várias das misérias e superficialidades mundanas. E se o riso é inteligência, como diria Bergson, a própria inteligência sabe que haverá sempre um momento em que o riso tem que parar. Para voltar a respirar tranquilamente e olharmos para onde vale mesmo a pena olhar. Porque a estupidez pode ser infinita, mas a nossa vida não é.