20 janeiro, 2014

A BANDEJA


Em Sábado, romance de Ian McEwan, uma família reunida para jantar vê a casa invadida por dois bandidos violentos. Ao avô, um velho e excêntrico poeta inglês, partem-lhe o nariz com um murro. Quando a filha e a neta o agarram para o socorrer, responde: «Está tudo bem. Já parti o nariz uma vez. Nos malditos degraus de uma biblioteca».
A situação é dramática. Mas um velho poeta lembrar que já lhe acontecera o mesmo à saída de uma biblioteca não deixa de ter um efeito cómico. Mas o que me interessa aqui é a associação entre duas situações tão diferentes mas cujas consequências são exactamente iguais: um homem inclinado, sangrando com o nariz partido, roupa suja, manchas de sangue no chão, grande sensação de dor e desconforto. Tudo igual, visualmente, no espaço e no tempo. Todavia, são situações com identidades e pressupostos radicalmente distintos. Escorregar à saída de um local repleto de livros onde se esteve a ler e a reflectir, nada tem que ver com levar um bárbaro murro de um bandido violento.
A vida, porém, está repleta de situações como estas, em que idênticas consequências muitas vezes obnubilam os seus verdadeiros significados. Nós somos seres racionais e pensantes. Mas também máquinas sensoriais que nos impelem para a física exterioridade do mundo, levando-nos a ficar centrados no que os olhos vêem.
Estes dois quadros de Ticiano vão-me ajudar. Num, temos uma cândida e inocente mulher com frutos e flores. No outro, uma pérfida Salomé com a cabeça de S. João Baptista. A mulher que serviu de modelo para os dois quadros, a pose, a expressão do rosto, o movimento dos braços, a bandeja são os mesmos. Troquem-se os frutos pela cabeça de Baptista, ou vice-versa, e não se dará pela diferença, poderia ser a mesma elegante mulher no mesmo quadro.
Ora, esta perigosa confusão visual entre um cenário idílico e um drama atroz e sanguinário, é profundamente assustadora. Neste caso, a inclinação das bandejas permite ver o seu interior. Mas fosse o ângulo de visão diferente e ficaríamos reduzidos a uma mulher apenas transportando uma bandeja. Daí não nos devermos concentrar demasiado nos aparentes detalhes visuais, ainda que reais e verdadeiros. O verdadeiro sentido das acções deve ser sempre procurado no interior das bandejas. Muitas vezes, infelizmente, demasiado tarde.