14 dezembro, 2013

PURÉ DE BATATA

Walker Evans, NY, 1938

Enquanto esperava pela minha vez para pôr as compras no tapete rolante da caixa do supermercado, fui, como habitualmente, bisbilhotando as capas das revistas no expositor. Uma delas falava de conselhos sobre como manter um casamento saudável e feliz. Ainda pensei abrir para me poder ilustrar com a anunciada sapiência matrimonial. Mas resolvi ser eu próprio a fazer esse exercício e não é preciso ser especialmente perspicaz para adivinhar que as brilhantes conclusões paridas pela minha superior inteligência devem ter coincidido com a enciclopédica verborreia da revista.
O que há-de lá estar escrito será o resultado de um conjunto de crenças, racionais, a respeito do casamento feliz. Racionais, porque vestidas com um tecido argumentativo plausível e coerente. Falando rápida e eficazmente, vai-se pela lógica da coisa, atrás do que o senso comum percebe intuitivamente como sendo óbvio e evidente. Enfim, a chamada lógica da batata.
Só que a lógica, a lógica mesmo, pode ser vista em dois planos diferentes: um formal e outro informal. Pensemos, por exemplo, na seguinte inferência: se A é maior que B e se B é maior que C, logo, A é maior que C. Ou na seguinte: todo o A é B, nenhum C é B, logo, nenhum C é A. Dois raciocínios cuja validade formal é de uma imaculada perfeição.
Só que lógica é lógica, realidade é realidade. Se eu transformar a primeira inferência numa outra formalmente igual mas já submetida a um conteúdo empírico, pode dar coisas como "O Gil Vicente ganhou ao Benfica, o Benfica ganhou ao Paris Saint Germain, logo o Gil Vicente ganhará ao Paris Saint Germain". Ou:"O João está apaixonado pela Joana, a Joana está apaixonada pelo Pedro, logo, o João está apaixonado pelo Pedro".
Como facilmente se percebe, a passagem de um registo meramente formal para um outro empírico, neste caso, ao nível da transitividade, revela-se fatal, não resistindo ao poder demolidor da realidade. Ao contrário da pureza da forma, a realidade é um território minado, feito de múltiplas e contraditórias variáveis, contingências várias, desejos, motivações e objectivos que flutam ao sabor da realidade como um peixe morto ao sabor das correntes e das marés. Na realidade, e legitimamente, tendemos muitas vezes a confundir verosimilhança com verdade. De um ponto de vista lógico há uma linha a separá-las que pode ser ténue mas cujas consequências podem ser gigantescamente imprevisíveis.
Quando falamos de realidade, a lógica pode ser a da batata. Esquecemo-nos muitas vezes é que as batatas, demasiado cozidas se desfazem, e se demasiado fritas se queimam. E o que nós queremos mesmo é batata e não puré de batata. Não vale a pena gastar dinheiro ou perder tempo com a revista se não é puré de batata que queremos. Mais vale, enquanto não chega a nossa vez de pôr as compras no tapete, ir a correr buscar um chocolate.