31 dezembro, 2013

PAUL DELAROCHE | FRANÇOIS GUIZOT, 1878


Ainda ontem dizia Viriato Soromenho Marques, no DN, que os acontecimentos são a retórica da realidade. Quando Guizot afirma que os acontecimentos estão para lá do que os seres humanos podem imaginar, não está bem dizer a mesma coisa e muito menos com a mesma elegância. Mas poderia obviamente subscrever a ideia. Não só como historiador mas também como político.
Mas eu não trago aqui Guizot por causa do que ele pensou como historiador ou fez como político. É só por causa deste seu retrato pintado por Paul Delaroche e por hoje ser a fronteira entre um ano que acabou e outro que irá agora começar. Ao contrário do deus Jano, cuja face dupla permite ver ao mesmo tempo o passado e o futuro, Guizot é retratado, estando completamente virado para um lado e de costas para o outro. A pose ideal para um historiador, que só tem olhos para o que foi, sendo cego para o que será.
Bem sei que a intenção do pintor não foi submeter esta pose a quaisquer tipo de simbolismos. Eu, pronto, é que não consigo ficar indiferente a eles. Guizot, enquanto historiador e político, pode ter sabido muito a respeito do passado e do presente. E que passado e que presente foram os dele, apanhado que foi pela implacável corrente de um dos períodos mais conturbados da história. Mas um sábio do passado e do presente nada pode dizer a respeito do futuro. A linguagem pode tentar traduzir o sentido do presente e do futuro. Mas quando se trata de futuro, a linguagem balbucia e a retórica passa-se toda para o lado da realidade. Será sempre uma vitória da realidade ou dos acontecimentos sobre a linguagem, realidade que anda sempre dois passos à frente da linguagem e, por isso, nunca haverá discurso para o que será. Como diria Guizot, a realidade ultrapassa a própria imaginação. E é disso que devemos estar sempre à espera quando começa um novo ano.