13 dezembro, 2013

PAMELA DE WILLENDORF

Jean Fouquet | A Virgem e o Menino Rodeados de Anjos, 1453-54

Ficou para história com o bonito nome de Vénus de Willendorf. Refiro-me à célebre escultura pré-histórica que representa um corpo feminino marcado pela fartura de carnes e uns generosos seios. Não admira que os nossos avós primitivos gostassem do corpo feminino com fartos seios numa época em que não havia o leite de farmácia. O peito associado à fecundidade, fertilidade ou sobrevivência, as mamas enquanto  fartos úberes, fonte de vida e sustento.
O que já pode ser estranho é o facto de o excesso de volumetria mamária continuar a exercer ainda hoje um enorme fascínio na humanidade. Numa época em que há o leite de farmácia, os pacotes de leite pasteurizado, os suplementos vitamínicos, em que as mulheres até poderiam filogeneticamente extinguir as mamas do mesmo modo que foram perdendo os atávicos pelos que cobriam o corpo.
Como explicar, pois, que medicamentos que aumentam o volume dos seios ou os implantes mamários, sejam um sucesso? Será que os argumentos mamários da Vénus de Willendorf continuam a exercer um hipnótico fascínio tal como no seu tempo? Continuam. Basta ver os calendários expostos nas barbearias que restam, oficinas e camiões TIR, para perceber o silicónico sucesso de mulheres como Dolly Parton, Sabrina, Pamela Andersen ou Samantha Fox. 
Significa isto que Pamela Andersen estará para nós como a Vénus de Willendorf para os primitivos antepassados? Não. Acontece que o seio deixou de estar apenas associado à maternidade para ser também um sinal de feminilidade. Erotizou-se, deixou de ser apenas apelativo para bebés ou um material simbólico ligado ao inconsciente colectivo da humanidade, tornando-se também num instrumento de sedução que organiza a identidade feminina de um ponto de vista estético e erótico.
Mesmo numa época em que as mulheres são agredidas pela exigência de um corpo magro, numa época em que a mínima quantidade de gordura é vista como uma praga que ameaça o ecossistema feminino, a farta volumetria dos seios consegue resistir ao império da magreza.
Para a historiadora Marilyn Yalom, autora de uma interessante História do Seio, é esta Nossa Senhora com o Menino, de Jean Fouquet, que pode marcar o início de uma visão erótica do seio. Na arte medieval existem muitas imagens de Nossa Senhora expondo o seu peito perante o Menino. Mas é um peito virginal, de uma simplicidade quase bizantina, reduzido à sua dimensão láctea, um peito cujo leite não é apenas fonte de vida biológica, mas também de vida espiritual. É uma espécie de seio imaterial, sem carne, um seio do qual jorra uma láctea luminosidade que purifica aquele que o bebe.
Só que a mulher que serviu de modelo para a pintura de Jean Fouquet chamava-se Agnès Sorel e não era uma mulher qualquer: era a amante de Carlos VII. Uma mulher conhecida pela sua beleza, pelos vestidos muito decotados, pelo luxo. Percebe-se, assim, o que terá levado J. Huizinga a dizer que este quadro tem “um sabor de ousadia blasfema”. Pensemos no que é representar Nossa Senhora a partir de um modelo daqueles. Depois, o peito de Nossa Senhora nesta imagem já não tem o aspecto de outros tempos. Já é um peito feito para seduzir quem olha para o quadro e cuja exposição não revela qualquer inclinação para amamentar o menino, o qual, como se pode reparar, revela uma atitude de absoluta indiferença. É uma mulher ambígua. Ao olharmos para ela ficamos baralhados, sem saber se devemos olhar para aquela mulher enquanto Nossa Senhora ou enquanto Agnès Sorel. Não sabemos se é uma mulher enquanto mãe ou uma mulher enquanto mulher. Há pois uma tensão nesta pintura que permite prever uma linha de fronteira entre o ocaso de uma arcaica Nossa Senhora virginal e uma Pamela Andersen cuja génese já se vislumbra.
Compreende-se assim o facto de milhares de mulheres gastarem fortunas com os tais medicamentos que aumentam o volume e consistência dos seios ou cirurgias. Há em cada uma delas uma Agnès Sorel que deseja ser olhada com o mesmo olhar lúbrico e lascivo com que os franceses do século XV olhavam para a amante de Carlos VII. O que revela o reconhecimento do peito feminino como enorme centro de gravidade da corporeidade feminina, tão essencial para a ciência feminina como o conceito de tempo para a teoria da relatividade de Einstein.
O seio torna-se assim num elo de ligação entre passado, presente e futuro. Ver a Vénus de Willendorf como uma Pamela Andersen pré-histórica ou Pamela Andersen como uma moderna Vénus de Willendorf.