02 dezembro, 2013

OS RESTOS DO MUNDO

Jacques Henri Lartigue

Eu não acho o mundo particularmente interessante. Mas pronto, é nele que vivo, tenho por isso que lhe dedicar alguma atenção, motivada pelo meu egoísta instinto de sobrevivência. Ora, isso faz com que tenha que ler jornais, embora sem a moderna devoção de quem faz disso a sua diária oração matinal. Digamos que será assim como tomar diariamente os comprimidos para a tensão arterial, o reumatismo e a diabetes. Não os tomo mas creio que ler jornais deve ser o que faço de mais parecido com isso.
Nos últimos dias, a grande excitação foi a contagem de mortos em três acidentes: um helicóptero que caiu em cima de um bar em Glasgow, um avião moçambicano caído numa floresta africana e um comboio descarrilado no Bronx. Eu não vou dizer que nada disto deveria ser notícia. Claro que é. O que eu acho engraçado é a excitante actualização, nas notícias portuguesas, do mundo de mortos e feridos. Num momento são 3. Horas depois já são 8, no dia seguinte passa para 9 ou 10. Eu tenho todo o respeito pelo povo escocês. Mas o que contribui para a minha felicidade estes eflúvios mundanos, por que é que hei-de ocupar o pouco que já resta da minha sanidade mental com informações desta natureza ou análoga? Que me interessa a mim que tenham morrido 7 ou 12 pessoas em Glasgow, 10 ou 20 pessoas em NY ou 15 ou 30 pessoas na selva africana, ainda que alguns sejam portugueses quando todos os dias morrem milhões de pessoas em todo o mundo e milhares em Portugal. E se dois dias depois já ninguém sequer se lembra dos acidentes, tal é a velocidade a que se sucedem as notícias?
Isto fez-me lembrar uma das muitas cartas escritas por Descartes à sua excelsa amiga Elisabete, princesa da Boémia. A carta foi escrita em Egmond (sim, a terra cujo nome está na origem da célebre composição de Beethoven), norte da Holanda, no dia 21 de Julho de 1645, estando ela dedicada a assuntos termais. A meio da carta, escreve o filósofo o seguinte:

Imagino que a maior parte das cartas, que recebeis de outros locais, vos dão emoção e, mesmo antes de as lerdes, receais encontrar nelas notícias que vos desagradem, devido a que a maldade da fortuna vos acostumou, há muito, a receber tais notícias com frequência; mas quanto às que vêm daqui, podeis estar segura pelo menos de que, se não vos derem motivo de alegria, também não vos darão nenhum  motivo de tristeza, e de que podereis abri-las a qualquer hora sem temer que elas perturbem a digestão das águas que estais a tomar. Pois, não sabendo nada, neste deserto, do que se passa no resto do mundo e não tendo pensamentos mais frequentes do que aqueles que, representando-me as virtudes de Vossa Alteza, me fazem desejar vê-la tão feliz e contente quanto merece, não tenho mais nada para vos propor a não ser os meios que a filosofia nos ensina, a fim de alcançar esta felicidade suprema, que as almas vulgares esperam em vão da fortuna e que só poderíamos receber de nós mesmos.

Muito poderia ser dito a respeito da correspondência entre o eminente filósofo e a muito inteligente e culta princesa. A única coisa que agora me interessa é a passagem em que ele se refere ao local onde se encontra como sendo um deserto no qual nada se sabe do que se passa no resto do mundo. O meu impulso foi logo tentar enfiar-me na cabeça de um homem culto do século XVII referindo-se a um local onde do mundo nada se sabe. O que quer exactamente isso dizer?
Vejamos. Estamos num século em que se anda de carruagem puxada a cavalos. Não há carros, motas, comboios, aviões, televisão, rádio, telégrafo, telefone, internet ou jornais tal como os conhecemos hoje. Nem electricidade. Ora, o que será na cabeça de um homem culto e informado do século XVII, saber o que se passa no mundo? Que coisas se saberão em Paris a respeito do que se passa em Londres? E em Londres a respeito do que se passa em Berlim? Saber-se-á de uma árvore arrancada pelo vento e que matou 5 pessoas? Não, 5 não, afinal foram 7. E até que parte do mundo se sabia o que se sabia? E quanto tempo se demorava a saber? O que foi saber em S. Petersburgo do terramoto de Lisboa? Sim, eu sei, estou a exagerar, é muito longe. Mas em Paris? Voltaire em Paris a saber do terramoto? Mas mais perto ainda, em Bragança? O que se soube em Bragança a respeito do terramoto de Lisboa e no Algarve? E sobre o que se passou em Vestfália, em Austerlitz ou nas Barricadas de Paris? Momentos em que a história é lavada e centrifugada, o que se sabe? E quanto tempo depois se sabe?
Seja lá qual for a resposta, sabia-se do mundo o que provavelmente seria preciso saber. Transposto para os tempos modernos, e mantendo as proporções, talvez equivalesse  ao velho e único telejornal de meia hora de outros tempos, em que o mundo estava reduzido ao que nós precisaríamos de saber sobre ele. Infelizmente, o resto do mundo de que fala o filósofo transformou-se cada vez mais nos restos do mundo.