04 dezembro, 2013

O MARTELO SEM MESTRE


O que achei mais interessante, vendo aqui a filha a falar acerca o pai, é a referência ao amor dele pela vida. Do homem que escreveu livros como O Mito de Sísifo, O Homem Revoltado, A Peste, O Estrangeiro. De um homem chamado Camus que escreveu textos como o Mito de SísifoO Homem Revoltado, A Peste ou O Estrangeiro. Sim, sei que me estou a repetir mas é bom lembrar.
Depois dei comigo a pensar no tempo em que só por se andar com Camus debaixo do braço, as pessoas se vestiam de escuro, cultivavam um ar melancólico, um olhar vago e distante, e com um mau feitio metafisicamente sustentado por um mal de vivre
Amor pela vida? Estaria a filha a mistificar o pai, condicionada pela ingénua percepção de menina de 14 anos? Olhando para as fotografias, tudo leva a crer que não. O homem que gostava de futebol, era também um pai babado, divertido e apreciador de prazeres simples e mundanos. Eu sei que as fotografias podem não querer dizer grande coisa. Não faltam por aí fotografias de pessoas a rir dias antes de se suicidarem, mesmo sabendo que se trata já do riso de Yorick a olhar para Hamlet. Do que eu falo é de teatro. Camus pensava, lia, escrevia, mas isso não o obrigava a ser actor das suas próprias ideias. Pensava o que pensava, mas vivia espontaneamente o que outros, inspirados pelas suas ideias, considerariam pouco interessante pela sua ausência de motivação intelectual: aqui a brincar com os filhos, ali com os filhos ao colo, acolá a dançar alegremente, acoli bem disposto na mesa de um restaurante ou a rir com uma amiga. Esses outros que, mastigando a comida que ele tinha previamente mastigado nos livros que escrevera, se contentavam em ser actores sobre um palco pisado só para poder impressionar, com textos bem decorados mas mal compreendidos.