05 dezembro, 2013

O BIGODINHO


Há ver para ver e ver para ler. Ler implica ver mas ver não implica ler. Ver a frase "A enorme árvore situada ao lado da casa" não é o mesmo do que ver uma árvore ao lado de uma casa.
Ora bem, estou a ler um livro, e na parte em que uma mulher, num longo monólogo, descreve a uma amiga a má relação com o seu marido. Entretanto viro a página para prosseguir, sendo a mancha gráfica que me surge perante os olhos, a seguinte:

Que coisa me resta da vida?-Perguntei,
com veemência, e o timbre  da minha voz assustou-me.-Um apar-
tamento? Um estatuto social? Alguém com quem almoço e janto e
que, de vez em quando, me oferece um pouco de ternura, tal como
se dá uma colher de xarope a um doente que se queixa de enxa-
queca?...Na sua opinião, haverá situação mais humilhante e desu-
mana do que alguém viver meia vida? Eu preciso de um homem,
inteiro!- disse, quase gritando.

A minha visão central, como é natural e previsível dirige-se para a primeira linha a fim de continuar a ler. Mas enquanto leio «Que coisa me resta da vida?- Perguntei» a minha visão periférica apanha toda a mancha gráfica na qual vislumbro a palavra «queca». Um equívoco. A palavra «queca» não existe, o que existe é um processo de translineação que obrigou à separação da palavra «enxaqueca» O que me traz aqui não é a parte cómica da situação mas o que se passou na minha cabeça no momento em que leio a (falsa) palavra «queca».
A acção passa-se nos anos 40, na Hungria (o livro foi escrito por Sándor Marai). A personagem que descreve à amiga o seu mau casamento, é uma mulher culta e elegante da alta burguesia. Ora, quando eu leio a palavra «queca» o que se passou na minha cabeça foi exactamente o que se passaria na cabeça de Leonardo da Vinco se viesse agora ao mundo e visse a sua Lisa del Giocondo com um bigodinho ou na de Jean Clouet se fosse dar com o seu Francisco I com um charuto na mão esquerda em vez de uma espada. Ou seja: esfreguei mentalmente os olhos e pensei que tal não poderia acontecer. Foi instintivo, espontâneo, imediato, sem precisar de pensar sobre o que haveria de pensar sobre o que estava a ver. Os meus circuitos neuronais rapidamente intervieram, accionando o botão de alarme. E acertaram. E acertaram porque se trataria de uma impossibilidade histórica. Sándor Marai não poderia tê-lo escrito, como não poderia Stefan Zweig, Roger Martin du Gard, Musil ou Rilke. Ou não poderia aquela mulher húngara.
Depois pensei no seguinte: e se estivesse a ler, não um livro de Sándor Marai, e a ouvir a conversa de uma mulher culta e elegante da Europa Central em meados do século XX? Se a acção fosse passada em Lisboa, em 2012, e o livro fosse escrito, sei lá, por Margarida Rebelo Pinto? E se a personagem fosse uma advogada de sucesso, falando com a sua melhor amiga, crítica de arte, a respeito do seu marido, professor universitário, queixando-se que anda com uma cabra de uma aluna, apanhando-os a dar uma queca?
Neste caso, continuaria, impávido e sereno, sem giocondas com bigodinhos ou franciscos sem charutos. Na minha cabeça, duas mulheres licenciadas, cultas, de uma classe social elevada, poderiam perfeitamente usar a palavra «queca», assumindo a minha cabeça claramente a sua verosimilhança. É verdade, o mundo mudou, e o miolo do século XX ficou, ressequido, no velho e gasto cesto do pão.