21 dezembro, 2013

O ARMISTÍCIO

William Klein | St Patrick's day, Fifth Avenue, 1954

Porquê a atmosfera festiva do Natal? Toda esta algazarra natalícia só por causa de um jantar e um almoço em família no dia seguinte? Toda esta exuberância utópica, como se o calendário tivesse finalmente alcançado, não a terra prometida mas o seu tempo prometido? Por que razão anda toda a gente a desejar a toda a gente "Boas Festas" ou "Feliz Natal"? Na rua, nas lojas, nos locais de trabalho, por sms, mail, carta, telefonema. Que significa, afinal, esta alegria, esta felicidade, este júbilo? Será devido ao nascimento do menino que nasceu nas palhinhas em Belém? Não. Já ninguém quer saber do menino para nada. Deus morreu e o menino está só à espera da Páscoa para ser crucificado e renascido e por causa disso nos podermos empanturrar com amêndoas e ovos de chocolate e passar uns dias no Algarve se o dinheiro ainda chegar.
No Natal as pessoas festejam apenas a ideia de natal. Natal é a ideia de Natal. Um espírito, um espectro bonzinho e simpático que desce à terra para insuflar bondade e alegria nos corações humanos e que depois se cristaliza numa espécie de ideia kantiana, ou seja, uma forma pura, um ideal na direcção do qual construímos os nossos pensamentos de homens e mulheres de boa vontade. Por isso gostamos todos muito uns dos outros no natal. Gostamos muito uns dos outros, não porque gostemos especialmente muito uns dos outros, mas porque gostamos muito da ideia de gostarmos muito uns dos outros e aproveitamos o Natal para, numa espécie de Festa do Avante natalícia, vivermos a ideia de gostarmos muito uns dos outros e por isso temos que andar felizes, tal como no carnaval divertidos e em Agosto bronzeados.
Mas o natal não é apenas uma utopia movida pelo sonho. Tem também o ácido perfume de uma clássica realpolitik. Neste caso, um simpático mas não menos cínico armistício.