23 dezembro, 2013

NO TUBO

Pierre-Louis Pierson | Condessa Castiglione, c.1863

Nem sempre é fácil discernir a pureza do bom e do mau e quanto a isso o You Tube não é excepção. É bom ir à procura de uma música e encontrá-la. O pior é a imagem, péssima, horrível, desfasada que, tantas vezes, quem a publicou se lembrou de associar à música que se deseja ouvir. Aconteceu-me isso há dias ao ir em demanda de um velho álbum que tenho ainda do tempo do vinil e dou com esta associação entre música e imagem.
Num plano racional, eu consigo separar os dois territórios. Sei muito bem que a música é a música e a imagem a imagem, e que não há nada na música que remeta para a imagem ou na imagem para a música, neste caso, aquelas flores. Mas também é verdade que ao estar a ouvir música enquanto vejo as imagens, acabo por fatídica e naturalmente as associar. Tenho muito bem a consciência de que se trata de uma associação forçada. Mas passo a não deixar de a fazer.
É possível fazer uma analogia entre esta artificiosa relação entre a música e a imagem no You Tube e o que se passa entre a alma e o corpo. Digamos que o corpo está para a imagem como a alma está para a música. A imaterial relação entre sons que dá origem à música não é da ordem do visível. Imaterial, não no sentido de uma ideal noção matemática mas, tal como a alma, por não ter extensão, textura, peso, espessura, cor, ou cheiro. No entanto, é assim que vivemos uns com os outros: como através de videos que vemos no You Tube. Como diria Platão se fosse vivo, um video no You Tube é um cárcere que aprisiona o espírito puro da música. Como o corpo para a alma.