27 dezembro, 2013

METAMORFOSE EM PROCESSO

Angela Bacon

Uma pessoa sente-se tentada a concordar com Kafka quando ele diz a Gustav Januch que num mundo sem Deus é quase uma obrigação moral o sentido de humor. Mas, pensando melhor, é bem capaz de ser o contrário. Num mundo tutelado por Deus é mais fácil o humor uma vez que há uma ordem estabelecida e uma das funções mais nobres e elevadas do humor é instalar uma certa desordem no mundo. O humor é subversivo, corrosivo, desmistificador, desidealizador.
Num mundo sem Deus, pelo contrário, é preciso ser sério. Vive-se como uma criança que fugiu de casa e que precisa de sobreviver apenas pelos seus próprios instintos. A obrigação moral, neste caso, ao contrário de um mundo sem Deus, no qual, como em Abraão, basta a fé para dar um sentido às nossas vidas, é pensar. Ok, pode não servir de grande coisa. E como é quase sempre esse o caso, uma vez que as coisas são o que são, então assim já não teremos nada a perder. Quer isto dizer que num mundo sem Deus também será quase uma obrigação moral o sentido de humor pois assim também nos podemos rir de nós próprios e dos outros que são também como nós próprios pois somos todos o que somos. Enfim, não era isto que eu tinha pensado dizer quando comecei há pouco a escrever e não posso evitar um sentimento de estranheza por esta mudança, que teve tanto de espontâneo como de inevitável, na minha reflexão. Mas também é verdade que quando Gregor acordou no dia seguinte já não era o mesmo que adormecera na noite anterior.