09 dezembro, 2013

MARTIN HEIDEGGER NO WC


Ora bem, como se pode aferir por aqui, não considero supérfluas e displicentes problemáticas que envolvam sanitas, daí estar longe de desprezar uma notícia como esta. Mais: irei mesmo usá-la como símbolo da racionalidade científica.
Eu gosto que haja ciência e, por inerência, cientistas. É giro explicar o funcionamento das coisas, saber por que é o céu azul, por que é que uma coisa cai quando a largamos ou, magna quaestio, explicar as diferenças neurológicas, bioquímicas e endocrinológicas entre homens e mulheres. Mas gosto da ciência sobretudo quando, associada à técnica, melhora a nossa qualidade de vida. Mas cá está! Gosto de cientistas como gosto de canalizadores, carpinteiros ou mecânicos de automóveis. Um cientista, vendo bem, é um trolha de bata branca numa oficina chamada laboratório, apenas mais sofisticado e ornamentado com cálculos matemáticos.
Voltando ao complexo universo das sanitas, acho muito bem que cientistas usem a sua arguta racionalidade e ponham os seus conhecimentos das leis da física ao serviço da higiene sanitária. Mas em relação a isso assumo o meu heideggeriano complexo aristocrático. Nasci plebeu mas face à praxis científica, o metafísico aristocrata que há em mim logo se engalana. Pensar é muito mais do que raciocinar enquanto se olha para as coisas para perceber a sua mecânica, é procurar sentidos. Já Platão ou os medievais pensavam assim, só que Heidegger viveu no século XX, ou seja, numa época de automóveis, centrais energéticas, linhas de montagem, coisas cuja essência técnica altera a nossa relação com o  mundo. Não duvido que Heidegger fosse um homem asseado e gostasse de ver a sanita imaculada para poder lá estar descansadinho a ler o Hölderlin tal como hoje se lêem os folhetos do Intermarché. Mas daí a ocupar os seus florestais pensamentos com a técnica questão de saber como evitar os efeitos secundários de uma inocente utilização mictórica da sanita, há todo um mundo por transpor. Se o mundo fosse uma espécie de elegantes termas nos Alpes, assim tipo Bergohf, o filósofo seria, apesar das alturas, Setembrini a discutir profundamente no salão de chá com os companheiros, enquanto o cientista seria aquele que andava a fazer a manutenção dos canos e das tubagens.
Heidegger não era um santo e até gostava de algumas coisas boas da vida. Daí eu achar que ele pudesse subscrever o famoso primum vivere, deinde philosophari, de Séneca, o que naturalmente inclui aliviar-se primeiro no WC antes de se pôr a pensar sobre os mistérios do Ser. Não estou mesmo nada a ver o filósofo bávaro a reflectir serenamente pelos umbrosos caminhos da floresta e à rasquinha para fazer chichi. E como ele não devia ser pessoa para fazer esse tipo de coisas ao ar livre, uma sanita certa na hora certa seria certamente uma clareira num momento de aperto. Todavia, pensar nas perfeitas trajectórias do jactos urinários, é coisa para cientistas que parece continuarem a brincar com peças da Lego ou da Mecano como se tivessem 5 anos. Pensar é muito mais profundo do que isso, é um acto pleno de gravitas intelectual. Acima, bem acima da gravítica profundidade de uma sanita.