10 dezembro, 2013

L'AMOUR L'APRÈS-MIDI

Karl-Heinz Hargesheimer | Colónia, 1956

Estive a corrigir testes virado para uma das janelas da biblioteca da minha escola. Lá em baixo, encostados a uma parede, estavam dois fedelhos a namorar. Não teriam mais de 12 anos. A minha distância em relação a eles, reforçada com a presença de um enorme vidro, permitiu-me estar a observá-los de um modo mais objectivo e imparcial, como se estivesse a trabalhar para a National Geographic num qualquer país remoto. 
Concentrei-me então nos aspectos puramente coreográficos dos corpos e expressões faciais, como quem observa dois cães ou dois gatos a brincar um com o outro: o modo como davam as duas mãos, como ora se encostavam, ora se afastavam, os abraços e os beijos, os risos, as expressões mais provocadores ou sérias. Ora, graças à relativa distância que me encontrava deles, acabei por ter uma dupla percepção. Por um lado, estava suficiente perto para ter uma percepção objectiva dos dois enquanto crianças. Mas também a uma distância que me permitia depurar os aspectos mais evidentes da sua identidade, atenuando assim a percepção da sua puerilidade, fazendo com que parecessem dois adultos. Quer dizer, apesar da minha consciência de estar perante duas crianças, acabei por transformá-las, espontânea e involuntariamente, em dois adultos.
Só que, entretanto, percebi que estava a fazer tudo ao contrário. Tal como Kant quando percebeu que o acto de conhecer não deve ser compreendido com base num movimento que vai do objecto para o sujeito mas do sujeito para o objecto, ou Galileu quando percebeu que a pergunta certa não é «O que faz uma bala de canhão permanecer no ar depois de disparada?» mas «O que faz com que ela pare?», também eu percebi que o processo correcto não será estar a submeter aquelas duas crianças a uma coreografia amorosa de adultos mas, pelo contrário, quando vir dois adultos na mesma situação, submetê-la a uma coreografia infantil.
No amor, crianças e adultos são actores que representam os mesmos papéis, com as mesmas coreografias e as mesmas expressões dramáticas. Para explicar quem copia quem, a tendência será ver o adulto como modelo e a criança como imitador com base num processo de imitação social. Ora, isto pode resultar em quase tudo o que tenha que ver com aprendizagens sociais. No amor, porém, acaba por ser o contrário. Os adultos apaixonados recuperam a sua puerilidade de outrora, tomando como modelo a criança irremediavelmente perdida e que estados afectivos como o amor acabam por ressuscitar. 
Naqueles dois, eu não vi duas crianças a parecerem adultas. Vi duas crianças a parecerem adultas que parecem ser crianças.