17 dezembro, 2013

DI


Há dias, senti um certo mal-estar no preciso momento em que acabo de dizer a um colega, cinéfilo, que tinha visto o Viagem a Tóquio, do Yasujiro Ozu. Por uma razão de carácter linguístico: o malfadado «do», da frase «Viagem a Tóquio, do Yasujiro Ozu». 
Eu poderia ser cinéfilo e não ter uma especial familiaridade com a cinematografia japonesa e em particular deste realizador. Acontece que nem tenho essa familiaridade nem sou cinéfilo. Daí o mal-estar no momento em que digo «do Yasujiro Ozu», uma vez que na língua portuguesa este «do» pressupõe uma relação familiar com a referência visada. Disse «do», sentindo de imediato que não era verdadeiramente eu que o estava a dizer mas uma parte de mim que não existe.
Se eu dissesse que ando a ler um livro do Mishima, da Duras, do Proust, do Mailer ou do Saramago, que vi um filme do Truffaut, do Hitchcock ou do John Huston, isso não me criaria qualquer desconforto pois são nomes familiares. E de uma familiaridade que tanto pode ser pessoal como institucional. Por exemplo, eu nunca li qualquer livro do Norman Mailer, não tenho, por isso, uma relação familiar com ele. Mas trata-se de um nome reconhecido, legitimando, desse modo a familiaridade do tratamento, tal como qualquer pessoa dirá, se lhe perguntarem, que o Hamlet é do Shakespeare e o D. Quixote do Cervantes ainda que nada tenham lido de um ou de outro.
Não existindo essa familiaridade, tanto entre mim e os filmes de Ozu, como entre o senso comum e os filmes de Ozu, este «do» deu assim origem a uma contradição entre os conteúdos, tanto cognitivos como emocionais, da minha consciência e o registo de linguagem em que tentei traduzi-los. Eu quis apenas dizer que vi um filme dele (um conteúdo meramente informativo) sem pretender simular a minha distância face ao seu cinema. Este meu registo, porém, poderá dar origem, na consciência do outro, a dois conteúdos falsos embora verosímeis: um outro conteúdo informativo muito mais vasto (uma suposta cinefilia) e um conteúdo psicológico (poder ser presunçoso). 
Qual poderia ser a alternativa? Dizer «Viagem a Tóquio de Yasujiro Ozu»? Seria ridículo no plano da oralidade. Há neste «de» qualquer de majestático, de ultrapassada reverência e formalidade que não se adequa ao modo mais pragmático, arejado, descontraído como nos servimos da linguagem para invocar oralmente um conteúdo de natureza cultural.
Quer isto dizer que me fez falta uma proposição intermédia entre o demasiado formal «de» e o demasiado informal «do», proposição inexistente na língua da qual me sirvo para comunicar, a portuguesa. Na comunicação usamos as palavras como ferramentas tal como o electricista ou a cabeleireira usam as suas para realizar as suas tarefas. Ora, se lhes faltar uma dessas ferramentas, isso implica a impossibilidade de realizar uma dada tarefa, por exemplo, desapertar um parafuso ou fazer madeixas. O mesmo se passa com a linguagem. A ausência de uma proposição que expressasse exactamente o meu conteúdo mental (que poderia perfeitamente existir, sei lá: di), impede-me de exprimir o meu estado de consciência relativamente ao cinema de/do Ozu.
Os limites da linguagem, neste caso, não são os limites do meu mundo mas os limites do meu mundo no mundo dos outros, fazendo com que as experiências intersubjectivas sejam experiências mais laterais do que frontais, como neste bonito fotograma de Viagem a Tóquio, di Yasujiro Ozu.