12 dezembro, 2013

COMO BOCA PARA CHOCOLATE

Jacques Henri Lartigue | Auto-Retrato, 1904

Eu adoro, será mesmo um dos meus mais atávicos prazeres, comer pais natal e coelhos de chocolate. Olho para eles como se acabasse de sair do livro de Lautréamont, não trocando a massa castanha da cabecinha oca de um pai natal ou de uma orelha de coelhinho depois de despedaçadas na boca como indefesos zagreus nos meus titânicos dentes, por um copo de vinho, por muito bom que seja.
Ora, há já muitos dias que vejo os pais natais a sorrirem para mim na prateleira do supermercado. Dezenas deles, como coloridos exércitos natalícios, rindo-se das minhas tentações. Todavia, ainda não trouxe nenhum, sendo a pessoa que escreve isto a mesma que já vai no quarto triângulo de um Toblerone de frutos e amêndoas. Como explicar isto? Pelo meu lado racional, pragmático, utilitarista.
Os pais natais são estupidamente caros para a quantidade de chocolate que trazem. E, vendo bem, também no que toca à qualidade. O que dá mesmo prazer nem é tanto o chocolate em si mas o desembrulhar a prata e, depois, meu deus, aquela maldita textura oca e aqueles pedaços de chocolate desfazendo-se num mar de saliva. Ora, por um pouco mais pode-se comprar um chocolate muito melhor, chocolate chocolate, chocolate mesmo, tanto em quantidade como em qualidade. Em suma, no decisivo momento em que olho para os pais natal e em que os pai natal olham para mim, é isso que disparam os meus marcadores somáticos sobre o poder decisório da minha vontade, deixando-me completamente desarmado e saindo mais uma vez do raio do supermercado com a consciência simultaneamente tranquila e infeliz, estado tão complexo que nem Hegel o saberia descrever na Fenomenologia do Espírito.
Mas cá está! Não passa de uma estupidez, de uma cegueira racional, calculista e adulta. Só faltam os Supertramp com o Logical Song. Detesto-me assim. Gosto mais de mim infantil, fútil, superficial e a descambar para a parvoíce e a irracionalidade. Toblerone há todo o ano. Pais natal, pelos vistos, nem sempre é quando um homem quiser. Apre!