07 dezembro, 2013

ARISTÓTELES NA SESSÃO DAS NOVE


Já me tinha acontecido, ao ver filmes, como, por exemplo, aqui, pôr-me do lado do assassino, intimamente torcendo para que não seja apanhado. Há dias, entretanto, aconteceu-me uma outra coisa que não parece moralmente menos grave. Ao ver este filme fiquei desalentado e frustrado com o happy end. Neste caso, uma mulher boa, em busca da felicidade, ter conseguido sair da prisão dias depois de matar um pedófilo nojento e de agredir a dona de uma casa de alterne que aliciou uma jovem para a sua actividade. Mais estranho ainda se torna quando eu próprio senti exasperação ao ver aquela mulher presa e com todos os indícios de que, ao contrário de gente perversa contra quem ela lutou, iria passar o resto da sua vida num atroz e injusto sofrimento. 
Que raio de contradição esta, sofrer com o sofrimento dela mas ficar frustrado pelo fim desse sofrimento. Só posso explicar isto pelo corte no fluxo do pathos. No fundo, eu sabia que se tratava de um filme e que aquela mulher não passava de uma simples personagem, neste caso, não feita de papel mas de celulóide. Não se tratava por isso de uma pragmática e jurídica questão de justiça ou injustiça na vida real. Não, o que me estava a prender ao filme era o meu sofrimento com o injusto sofrimento dela, como se estivesse face a face com a própria injustiça. E através desse sofrimento eu próprio me torno uma pessoa melhor, sobrepondo a minha emoção a uma simples percepção técnica ou jurídica deste caso, depurando assim os meus sentimentos morais. O que faz com que, no fim do filme, seja uma pessoa diferente daquela que o começou a ver. 
Enquanto nas situações em que nos pomos do lado do assassino estamos a ser manipulados por um realizador que explora os nossos instintos mais perversos, nestes casos, somos redimidos pelo poder catártico das emoções. E é neste mundo, não no outro que não existe, que vale a pena encontrar a salvação. Neste caso, ficou mesmo aquém do que eu desejava.