24 dezembro, 2013

A CRIADA

Sune Jonsson

Graças a uma profecia, o rei Acrísio fica a saber que, um dia,  há-de-lhe nascer um neto que o irá matar. Apavorado, enclausura a filha, a formosa Dánae, para que fique isolada do mundo, excepto uma criada que toma conta dela. Mas Zeus, que já se tinha apaixonado por ela, vendo uma pequena fresta, metamorfoseia-se em chuva de ouro que vai banhar o corpo nu de Dánae, que se lhe oferece lânguida e sem resistência. É desse banho dourado que nasce Perseu que virá a matar a sinistra e horrível Medusa. Mas também neto de Acrísio...
O episódio foi bem retratado na história da pintura. Recorro a esta versão, uma das quatro pintadas por Ticiano. Não é a minha preferida, aquela em que Dánae está sozinha com um anjo. Mas é precisamente por causa da criada que a escolho.
A naturalidade com que Dánae, nua, recebe a chuva de ouro sobre o seu corpo é a mesma de qualquer mulher que recebe o seu amante. Tão natural como se não esperasse outra coisa. Mas é um momento de grande intensidade poética e de presença do Maravilhoso. Ora, como reage a criada face à presença deste Maravilhoso? Em vez de, como Dánae, pactuar com ele, agarra no avental e começa avidamente a apanhar as gotas de ouro. Cega perante o Maravilhoso, vê apenas dinheiro e o seu único desejo é apanhar o mais possível. E se tivesse conseguido apanhá-las todas, seria o fim do encantado enlace entre um deus transformado em ouro e o corpo nu de uma princesa.
Lembro-me sempre desde quadro por altura do natal, a celebração do maravilhoso nascimento, num estábulo em Belém, de um menino filho de um deus e de uma pobre e humilde mortal que, como Dánae, também concebeu sem mácula. Mas o natal que se tornou cada vez mais o natal na época do desencantamento do mundo, em que parecemos cada vez mais a criada de Dánae.