19 dezembro, 2013

A BANALIDADE DO NATAL

Bruce Davidson

Hoje, atravessei uma rua a pé no momento em que um carro muda de direcção para entrar nela. Eu tinha visto o carro mas como o condutor não fez pisca, presumi que seguiria em frente e não na minha direcção. O homem trava de repente, abre o vidro e começa a resmungar alto e com ar de me querer assassinar, aquelas coisas de condutores exaltados, chamando-me ceguinho e para eu ver bem por onde andava. Eu, pedagogicamente, como se estivesse numa aula a interrogar um aluno sobre a moral kantiana, perguntei-lhe se não sabia o código da estrada, que obriga os carros a fazerem sinal sempre que mudem de direcção. Mas o homem não queria ouvir, só queria continuar a expelir pela boca sons ininteligíveis, uma vez que a sua dicção estava ao nível do seu ar bronco e, quem sabe, uma personalidade, digamos, complexa. Eu, entre o desespero e a pressa de quem tem que ir trabalhar, e num gesto nada habitual em mim, mandei-o foder, mas sem deixar de lhe desejar um bom natal. Porque, acima de tudo, é natal. Não sei se chegou a perceber, mas eu fiquei bem com a minha consciência de homem de boa vontade que se prepara para comemorar mais um natal.