19 novembro, 2013

RELATIVISMO CULTURAL

Josef Koudelka | Ciganos, 1975

Não sou, infelizmente, o burguês que gostaria de ser. É verdade que tive o meu tempo de andar a roubar fruta a meio da noite como Santo Agostinho, o meu tempo do campismo selvagem, do andar à boleia pelos caminhos de Portugal, do andar quilómetros com a mochila às costas sob um Sol vingativo, do viver o presente sem pensar no futuro, do dar uma bela queca numa cama de dossel: erva por baixo e as copas das árvores por cima. Hoje, porém, tirarem-me o meu fáustico sofá é arrancarem uma parte do meu corpo. Não tenho espírito de aventura, gosto do conforto que me é possível ter e já não me livro das minhas irritantes manias de pequeno-burguês.
Também não tenho os arrebatamentos etnográficos dos que se sentem fascinadas por culturas diferentes. Estou longe dos muitos intelectuais do século XVIII que tentaram vislumbrar nos povos ameríndios sinais de uma pureza adâmica ou de tantos turistas de máquina fotográfica ao léu que, vestidos de Levis, seja Brühl ou Strauss, buscam o simpático selvagem para partilharem o seu tropical exotismo durante dois dias. Embora sobre uma jangada de pedra, é europeu que me sinto e gosto de me sentir, é na Europa que estão as minhas referências, a filosofia, o cinema, a pintura, a música ou a literatura que mais me interessam. Mas vamos mesmo ao que interessa.
Ontem, para fazer uma caminhada, atirei-me para os braços da noite gélida. Estabeleci um círculo como percurso, o que me levou a passar três vezes pelos mesmos pontos. Um desses pontos é um bairro social onde também vivem algumas famílias ciganas. Não passando por ali há cerca de dois anos, fui dar com um cenário que já conhecia desse tempo: várias ciganos e ciganas, de várias gerações, confraternizando alegremente à volta de uma enorme fogueira. Agora, das três vezes que lá passei, ouvi-os a rir estridentemente e várias pessoas a falar alto e ao mesmo tempo, talvez a ver quem conseguia fazer rir mais.
Não sinto qualquer fascínio por ciganos, detestaria viver como os ciganos, jamais trocaria o meu cinzento e fáustico sofá pelo calor tribal daquela fogueira. Mas dei por mim a pensar quantos brancos, com os seus bons apartamentos e moradias, com os seus belos carros nas garagens, dentro das suas cozinhas e salas bem equipadas a prepararem-se para mais uma silenciosa noite de amor em frente ao plasma, podem reclamar, numa noite fria de segunda-feira, estar mais felizes do que aqueles ciganos indigentes aquecidos por um calor tribal.