07 novembro, 2013

PREMISSAS PERDIDAS

Herbert List

Se dissermos que 

Nenhum jogador de futebol gosta de Zizek e que Todos os intelectuais de esquerda gostam de Zizek, podemos com toda a certeza concluir que Nenhum intelectual de esquerda é jogador de futebol

Se é verdade que Os políticos do PS e do PSD gostam de contar dinheiro às escondidas todas as noites antes de irem para a cama e se é verdade que José Sócrates e Marco António Costa são políticos do PS e do PSD, logo, José Sócrates e Marco António Costa gostam de contar dinheiro às escondidas todas as noites antes de irem para a cama

Trata-se de silogismos aristotélicos (estou a fazer um pouco de batota mas Aristóteles perdoa-me), argumentos graças aos quais a partir da relação entre duas premissas podemos obter uma conclusão válida. Se as premissas são verdadeiras, a conclusão também o será, ou seja, a verdade das premissas exige a verdade da conclusão. 
Mas o que dizer deste argumento? 

Armando Vara e Miguel Relvas são corruptos porque são políticos

Trata-se também de um argumento mas parece que falta aqui qualquer coisa. Exacto, uma premissa. Enquanto os dois anteriores têm duas premissas e uma conclusão, este tem apenas uma premissa e uma conclusão. Será que esta ausência vai alterar, na substância, a natureza deste argumento? Ao contrário do que se possa pensar, não. A coisa explica-se uma vez que existe uma segunda premissa, omissa, que está lá implicitamente: Todos os políticos são corruptos. A coisa fica então assim:

Todos os políticos são corruptos (premissa omissa)
Armando Vara e Miguel Relvas são políticos
Logo, Armando Vara e Miguel Relvas são corruptos

A este tipo de argumento dá-se o nome de entimema (podia ter um nome mais simpático mas os velhos gregos não estavam obcecados com nomes engraçados para seduzir adolescentes com ar aborrecido e desmotivado). Nós estamos sempre, informalmente, e sem darmos por isso, a argumentar com base em entimemas. Ou seja, não temos que assumir expressamente todas as premissas com as quais tentamos demonstrar uma certa conclusão. Mas muitas vezes exageramos. Os nossos argumentos acabam muitas vezes por ter mais premissas implícitas do que explícitas. O que faz com que tantas conclusões apareçam quase por magia. As conclusões surgem como pretensamente verdadeiras mas as premissas que as sustentam andam perdidas por labirintos mentais, sendo difíceis de encontrar. E muito daquilo em que nos querem fazer acreditar é sustentado por premissas que verdadeiramente nos escapam. E quanto mais assim for mais de olhos fechados andamos pelo mundo.