04 novembro, 2013

POLÍTICA TÂNTRICA

Antanas Sutkus | Jean Paul Sarte, 1965

Sartre foi Sartre. Houve um tempo em que lê-lo era ler o que era preciso ler no domínio da literatura. Hoje já ninguém lê Sartre mas acredito que pode continuar a ser uma experiência intelectualmente gratificante. Se eu voltasse a ter 18 anos voltaria a lê-lo e gostaria que os jovens agora o lessem. E a sua obra filosófica continuará a marcar pontos no âmbito da fenomenologia. E o mesmo se pode dizer dos seus textos de crítica literária, cultural ou política.
Mas que dizer do Sartre engagé? Olhando para o mundo com o qual Sartre se comprometeu, o que vemos são pedaços de história em putrefacção e a desfazerem-se na areia do deserto até ficarem enterrados e esquecidos. Sartre alinhado com Moscovo, Sartre maoísta, Sartre a vender jornais cheios de tontices pelas ruas de Paris. Moscovo, invasão da Hungria e da Checoslováquia, revolução cultural chinesa, estudantes birrentos pelas ruas de Paris, o que é isso, hoje? Areia, e areia que já nem queima os dedos, areia arrefecida e que apenas pisamos nos livros de História.
Parto de Sartre, mestre do disparate no que toca ao compromisso político, para questionar o papel do intelectual na sociedade. Indagar se deve o intelectual deixar a sua torre de marfim para sujar as mãos na espuma dos seus dias. Pelo exemplo de Sartre, parece que mais valia ficar sossegadinho no seu gabinete a escrever teatro, sobre Genet ou a pintura de Tintoretto, ou, num nível ainda mais elevado da esfera celeste, sobre o en soi e o pour soi para memória futura.
Nada disso. Um intelectual não tem que assinar por baixo de Platão quando, na sua famosa Carta VII, começa por lembrar que na sua juventude tinha o projecto de vir a intervir na política para, algumas linhas depois, afirmar, desolado, que todos os Estados são mal governados, motivo que o levou para a filosofia, cuja luz seria a única a poder ensinar-lhe a justiça na vida pública e privada.
Aristóteles fez política, Locke ajudou a elaborar uma constituição, Stuart Mill foi um activista social na Inglaterra vitoriana e até Montaigne foi presidente da câmara de Bordéus. Para já não falar no alemão pastor do Ser que não resistiu ao charmoso bigodinho de Hitler. Acho óptimo. Um filósofo é alguém que pensa, ainda que numa coisa intelectualmente tão pouco estimulante como é a política.
Um intelectual, filósofo ou não, pode ser útil de duas maneiras: uma negativa, outra positiva. Negativamente, enquanto crítico da sua sociedade, psicanalista social e político que desmonta as pulsões que ameaçam importantes valores éticos e políticos. Quem melhor o pode fazer senão aquele que pensa, que interpreta o mundo, que tenta ver mais e mais longe do que os outros, produzindo conceitos e quadros mentais, ou o artista que com as suas obras ajuda a ver melhor as linhas com que nos cosemos? Trata-se, neste caso, de exercer uma função céptica do pensamento. A mais fácil, já agora.
Mais difícil é o intelectual brincar à política, contribuindo com as suas ideias. Como diria Steiner, uma coisa é criticar ao fim de semana, outra é chegar 2ªfeira de manhã e pensar no que se vai fazer e nas decisões a tomar. Mas também aqui o intelectual pode descer à cidade. Depende tudo da maneira como desce. Se souber ser prudente e sensato e limitar as suas ideias ao que a realidade lhe permite, aprendendo a gerir a arte do possível, o seu contributo pode ser importante. Se, todavia, o seu excessivo entusiasmo ideológico o levar a viver a perigosa vertigem da conjuntura, arrisca-se a não passar de ejaculações precoces que empobrecem e até tornam perigoso o seu contributo.
Um intelectual não tem que ser ideologicamente frígido. Apenas perceber que a história, por vezes, é uma tarada, e uma tarada que pode levar ao desvario e à perdição. E é precisamente por ser intelectual que tem a obrigação de ver mais longe, ser mais sensato, prudente, diligente, apontando as possíveis consequências desses desvarios. Jamais deverá perder o controle sobre a realidade, navegar sempre à vista, lentamente, pacientemente, nunca se afastar demasiado da costa, com muitos preliminares e sem qualquer pressa de chegar à terra prometida. A aventura pode não ser épica, mas também não há o perigo de ajudar a levar o barco para uma ilha deserta onde muitos dos que eles ajudou a levar para lá, já só pensam em como de lá sair.